Os problemas de Jurassic World

Há pequenos spoilers, mas o filme é tão óbvio na sua proposta que nenhuma revelação deverá causar assombro.
Jurassic World é um filme regular, no máximo. O plano do vilão, encarnado na pele de um obeso empreendedor de visão militarista, é risível. A opção de transformar os dinossauros em novas armas de guerra é justificada por um argumento frágil: teoricamente teriam mais facilidade em adentrar áreas onde os drones enfrentam dificuldades, como cavernas e montanhas, além de reduzir o custo humano. No entanto, já existe uma solução para o problema dos lugares inóspitos. Uma bomba com a capacidade de perfurar o solo e acionar a detonação somente após penetrar alguns metros do local alvejado. (http://migre.me/u2IiT) Talvez haja alguém que advogue que tal uso seria menos oneroso às finanças americanas, mas devo lembrar que os selvagens são recriados geneticamente, o que sem dúvida não é um processo barato.
Mesmo deixando tal tecnicidade de lado, o plano ainda deixa de responder questões consideráveis. Vejamos: Existe uma forma segura de controle dos animais primitivos? Não! E a maior aposta do sujeito a se odiar em conseguir o mínimo de autoridade perante a espécie é a capacidade de apenas um homem, não por acaso o protagonista humano, de adestrar canhestramente uma irrisória quantidade de dinos, monitorados desde o nascimento. Cá entre nós, é um tanto arriscado investir em um projeto que somente um cidadão, que não vai com a sua cara, nem é simpático a suas ideias, tem a habilidade de disciplinar uma horda de irracionais. Mesmo que fosse um homem comprável, e se morresse ou se simplesmente não conseguisse transmitir seus conhecimentos a outros, fadando o projeto a durar uma breve geração? Abortaria o projeto de bilhões e bora seguir com a vida? Os americanos são conhecidos pela capacidade de inovação, do planejamento de longo prazo, de perceber possíveis problemas antes mesmo que aconteçam. Não à toa desenvolveram o míssil citado no começo. Custa acreditar que comprariam um projeto que ofereça tão poucas condições de domínio do principal produto.
O parâmetro adotado para por a prova o mecanismo que encontrara de disciplinar o peculiar aparato bélico é patética. É como pedir a três formigas um desempenho expressivo diante de um leão e decepcionar-se com o resultado.
Para encerrar o capítulo vilão, a morte do mesmo é completamente falta de inspiração. Esquecível. Deveriam ter chamado algum roteirista do Justiceiro.
O herói carrega também os seus problemas. Durante a película é apresentado ao expectador o choque de pontos de vistas conflitantes: o belicismo oportunista a custa da liberdade de uma espécie e o espírito pacifista pregando o respeito à natureza. Evidente que o mocinho desfraldará a bandeira do segundo. A questão é que diante do quadro complicado que se estabeleceu no parque com a fuga da mais feroz criatura desenvolvida que se tem notícia, é desarrazoado ser contrário a implementação do plano do maquiavélico, por mais restrições que se tenha a ele. Qual outra opção se apresenta? Ou pelo menos qual outra opção sensata se apresenta? Por que o caminho defendido a se trilhar recair em outro ponto problemático do herói. A sua enorme fé em si mesmo.
Um mortal sem superpoderes munido de uma arma de calibre médio acompanhado de uma ruiva maravilhosa (acho que é o que de melhor o filme oferece) na caça de uma máquina de guerra gigante repleta de dentes medonhos. É mais absurdo do que a estória das três formigas e mesmo assim o enredo tenta passar ao expectador que esta é a melhor e mais correta solução a se tomar. Em boa parte do longa, estive de acordo daquele que deveria ser contrário. O mundo mudou ou terei mudado eu?

 

Outro ponto que ilustra a falta de coerência do roteiro é a cena que se apresenta o casal que todo mundo sabe que terminarão juntos resolvido o entrave principal. O representante do bem, aí sim, respeitando a lógica, a essa altura já demonstrara a sua visão de mundo e o seu enorme apreço aos animais, sejam eles quais forem, e mata com a maior das indiferenças um inseto para impressionar o seu interesse romântico. Parece um detalhe menor, mas analisando o perfil do protagonista, soa contraditório.
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A cena peca em outro aspecto. Visivelmente, o gesto fora pensado como uma forma de demonstrar a destreza e segurança do personagem, mas o efeito que surtiu na plateia foi de uma comicidade involuntária por ressaltar demais aquilo que um indivíduo razoavelmente experiente acerca da narrativa cinematográfica deduziu, sem grande esforço, minutos antes, aliás, deduzível antes mesmo de começar o filme, basta ter olhado o trailer: ele é o cara! Em suma, desnecessário.
Por onde andaria o Estado Norte-americano? No terceiro filme, o parque fora construído na clandestinidade, por que no término do segundo os dinossauros ficaram isolados em uma área restrita supervisionada pelo governo do império do mundo moderno. Nesta sequência, não é fornecida qualquer informação sobre o meio empregado para convencer os americanos a liberar o uso de um desastre recorrente. E mesmo na hora mais crítica, com civis morrendo a torto e a direito, não há aparição de uma mísera força de combate especial do Tio Sam. Esses americanos não são mais os mesmos. Os russos teriam explodido a ilha sem a menor compaixão tratando a questão como um cálculo matemático simples: milhares de mortes ao invés de milhões.
Anteriormente, escrevi que o melhor do filme é a presença feminina mais marcante, a ruiva, vale a citação da atriz, Bryce Dallas Howard, não só por sua exuberante beleza, mas por ter desempenhado bem o seu papel, todavia seu personagem também apresenta deslizes. Virou motivo de chacota o fato de a executiva fugir de uma ameaça muito mais veloz, em terreno irregular, calçando salto alto. Engraçado que o protagonista até menciona esse absurdo, deixando claro que esse detalhe não escapou do roteirista e do diretor. Isso me faz pensar se se tratou de uma tentativa de simbolismo, que somente eles entenderam. Claire, nome da personagem, é o tipo que gosta de ter tudo sob controle, sempre se baseia nos números, estatísticas, se pauta pelo fato incontestável, regrada e fiel aos protocolos, pouco afeita a subjetividade, o oposto de seu par romântico. Estariam tentando reforçar essa característica ao passar que a personagem é tão crente nos benefícios de ter tudo sob controle que é capaz de até mesmo se equilibrar no salto mesmo em ambiente e situação imensamente desfavorável? Especulação. E mesmo se for o caso, não significa que seja uma boa ideia. Seria desnecessária e de gosto duvidoso. Não seria um protocolo elementar diminuir a chance de queda em uma corrida que pode lhe custar a vida? Outro detalhe: Parece que o fato de ser bela e ser o interesse romântico do carregador de piano do filme a isenta de todas as suas falhas morais. Durante o longa, Claire e o dono do parque tomam decisões inacreditáveis de tão irresponsáveis, protelam até o último instante o uso de armas mortais colocando em risco uma multidão presente na ilha. Funcionários e turistas acabam morrendo. O final óbvio se aproxima, todos do núcleo principal e bonzinho sobrevivem, chorosos e sorridentes por terem escapado de um perigo tremendo e não há um questionamento sobre o que fora feito, as possíveis consequências, os desdobramentos, a investigação do que houve, os crimes cometidos, a negligência realizada. Salvar-se apaga o passado. É a lição que fica.
Ora, se o filme é tão ruim por que categorizou como “regular”? As atuações não comprometeram, os efeitos especiais, como sempre, são bem feitos e há uma luta maneira de dois dinossauros gigantes e violentos no final, e isso é sempre bom.

A excelente bilheteria  e as boas críticas que recebeu só posso creditar ao desespero do público pela falta de boas opções disponíveis e um saudosismo constrangedor de uma franquia datada.

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