O beija mão de Neymar Jr.

Pouparei o leitor de uma longa descrição do maior atleta da história – e não falo de seu Edson – por julgar desnecessário uma vez que, infelizmente, o trágico confirmou a mortalidade de toda carne vivente neste grão em meio ao nada, por mais distinta que seja, novamente e há pouco; fazendo com que esteja fresca na cabeça das pessoas a trajetória da personalidade vencida pelo tempo, por causa das inúmeras reportagens e homenagens narrando seus feitos e importância.
 
É claro que falo de Muhammad Ali.
 
Ali se eternizou não só por suas façanhas dentro do ringue, mas por seus posicionamentos como cidadão, por não temer declarar-se adepto de uma fé minoritária e mal vista na sociedade que vivia, por defender os direitos de sua etnia e denunciar os abusos sofridos por esta, por negar-se a participar de uma guerra por discordar dos motivos que culminara em sua eclosão, colocando em risco a carreira e a popularidade do próprio nome. Ou seja, um atleta que não se importava somente com a glória pessoal e tinha consciência de sua importância e influência. Soube como poucos valer-se dela para tentar transformar o meio que estava inserido, minar as injustiças que o rodeavam. Transcendeu o mundo esportivo de fugazes alegrias e cravou um cruzado de direita nas empedernidas batalhas da história universal.
 
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Acho que não existe paralelo melhor a se fazer para acentuar a assimetria de trajetórias em relação à figura tema do enunciado.
 
Neymar é um rapaz de muita sorte. Por nascer com o talento que tem pra jogar a modalidade esportiva mais popular do mundo, por nascer em uma época em que se deposita, sem exageros, rios de dinheiro pra contar com seu futebol, por nascer em um contexto em que é a única unanimidade, em termos esportivos, na nação mais vencedora na profissão que atua, algo inédito, pois o Brasil sempre foi reconhecido por revelar jogadores excepcionais. A estrela é tão afortunada que até mesmo fora das quatro linhas vive um período em que se há pouquíssimas expressões notórias, seja no campo artístico ou político, e muitos dos que aí estão são emblemas de gerações desbotadas. Pondo essas cartas na mesa, pode-se dizer que a repercussão que recebe, respeitando as devidas épocas, é a mesma, talvez maior, que a de Ali. Neymar é tão sortudo que tem a oportunidade de marcar indelevelmente, seria uma marquinha menor, verdade, mas não deixaria de ser algo a se respeitar, a história com “H” maiúsculo comprando brigas menos espinhosas que o grande Muhammad.
 
A Confederação Brasileira de Futebol, autoproclamada organizadora e representante do futebol de elite do país, portanto da seleção brasileira, com o aval bovino dos clubes, é uma instituição moralmente falida, ao contrário de seus largos cofres, que há décadas, desde João Havelange, dilapida o futebol brasileiro concentrando a exorbitante renda que a paixão nacional capta e distribuindo miséria aos clubes acéfalos e desunidos, basta conferir a dívida estratosféricas dos clubes, as péssimas condições dos estádios e os balancetes financeiros pra lá de positivos da entidade, além de exibir rara incompetência para organizar um calendário favorável as agremiações, que impeça quantidade de jogos excruciantes que lesionem os atletas e prejudique a qualidade das partidas, por proporcionar pouquíssimo tempo de treino, a exibição de jogos em horários pouco atraentes , especialmente para o torcedor e os munícipes que residem ao redor, a realização de jogos em datas que a seleção nacional precisa ir a campo,  punindo os times com os jogadores selecionados, e o desmonte dos elencos dos clubes no transcorrer dos campeonatos, devido ao assédio internacional.
 
 
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 É de conhecimento público a proteção que a federação recebe dentro do congresso nacional que impede que Comissões Parlamentares de Inquérito, as famigeradas CPIs, avancem nas investigações de improbidades administrativas praticadas pelos gestores da organização. Proteção que recebeu o nome de “Bancada da Bola” composta por espécimes engravatadas asquerosas colocadas ou financiadas pela entidade para defender seus interesses.
 
A corrupção da CBF ganhou mais destaque, dessa vez internacional, ao ser implicada nas investigações do FBI, em parceria com as autoridades da Suíça, sobre esquema fraudulento promovido pela FIFA, envolvendo lavagem de dinheiro e subornos, abrangendo, inclusive, a escolha das próximas sedes da Copa do mundo, no caso, Qatar e Rússia. Quatro ex-presidentes da CBF tiveram seus nomes destacados nas investigações, sendo que um deles, José Maria Marin, acabou atrás das grades e outro, Marco Polo Del Nero, que ainda manda e desmanda na entidade ao colocar um fantoche em seu lugar, não pode sair do país pelo risco de também ser preso no desembarque, algo parecido com o que ocorria com Paulo Salim Maluf, político famoso por  fazer governos de grandes construções e grandes roubos.
 
Talvez esse escândalo não causasse grande rebuliço e pressão por uma renovação, ou até a implosão, do órgão se nos gramados a seleção brasileira estivesse encantando, mas ultimamente anda estarrecendo.
 
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Por muitos anos, os dirigentes quadrilheiros da federação conseguiram conter os ânimos do torcedor se escondendo por trás de vitórias que pouco contribuíram, sobrevivendo na clara exploração dos talentos individuais dos atletas que se sobressaiam apesar das dificuldades que a própria CBF gerava com a desorganização supliciante e a transformação da seleção em mercadoria ao vender amistosos em forma de leilão, independente do local, data e tradição dos adversários.   Porém, no atual panorama, o improviso, o individualismo, o fator campo, já não são mais suficientes para sair-se vencedor em uma partida, a organização tática, o condicionamento físico, o trabalho das bases, tornaram-se fundamentais; trabalho que requer um esforço em conjunto de dirigentes e atletas.  
 
A constatação dessa verdade ficou evidenciada na última Copa do Mundo, com o placar histórico e vexaminoso de 7X1 sofrido pela seleção, jogando em casa, na semifinal do torneio. Embora, deva se dizer que não é correto se ater a esse resultado. O selecionado mereceu a derrota todas as vezes que entrou em campo naquele junho de 2014. Recentemente foi eliminada nos pênaltis, pelo Paraguai, na Copa América, apresentando futebol pavoroso e mais uma vez eliminada na edição especial do mesmo torneio, ainda na primeira fase, não conseguindo se qualificar entre os dois melhores de um grupo fraquíssimo integrado por Peru, Equador e Haiti. Ficou evidente, ainda mais para quem já nutria essa certeza, de que não há a menor condição do futebol continuar ser conduzido pelos atuais gestores, por que podem entender de muita coisa menos de futebol moderno. Já não podem ser escorar no discurso malufista (na verdade o Maluf reciclou a expressão, ela surgira nos tempos de Adhemar de Barros, ex-governador paulista) adaptado de “rouba, mas vence”. 
 
Ora, com vilões tão facilmente identificáveis, a infâmia dos dirigentes é conhecida pela massa que sobrevive no território nacional e percorre, dia após dias, a cada novo vexame e denúncias, a vastidão do orbe, é no mínimo sensato, mesmo que seja indiferente a questão e apenas perceba uma oportunidade de melhorar a imagem perante o público, colocar-se contrário a entidade, fazer pressão pela renovação da mesma, negar-se a jogar com a camisa brasileira, ser porta voz de um discurso de transformação apegado a bons princípios, sendo um verdadeiro bom exemplo a se seguir. Com o tamanho que Neymar tem, não seria impossível que o desmonte da organização criminosa acelerasse pelo destaque que seu posicionamento ganharia na mídia do mundo inteiro e a comoção que causaria no público. Os danos que sofreria seriam mínimos, se é que existiriam, afinal, joga em um clube que não responde a CBF, ganha vultoso salário e é cobiçado pela Europa inteira. Qual seria a sua perda? Injusto é cobrar de jogadores com nome bem menos expressivo que o ex-santista, como zagueiro Paulo André, membro fundador do Bom Senso Futebol Clube. Provavelmente, seria jogador símbolo de um divisor de águas no planeta bola, tendo apenas que dizer um “não” e falar o que é fartamente noticiado pela imprensa a respeito das barbaridades administrativas da Confederação Brasileira de Futebol.
 
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Mas Neymar não faz isso.
 
Seja por miopia, ignorância ou puro egoísmo. Jamais criticou o órgão, sempre aceitou a convocação e ainda cometeu o disparate de criticar grosseiramente os críticos, e isso inclui todo torcedor de opinião igual, pelo novo vexame da mais recente eliminação da seleção brasileira, os chamando de “babacas”.
 
Sinceramente, acredito na última opção. Ele é um egoísta pouco afeito a princípios éticos. Lembro-me de um episódio que um dos seus luxuosos carros teve um problema com a receita federal brasileira e acabou sendo confiscado. Ao invés de tentar resolver o problema regularizando a situação, postou em uma rede social uma foto onde estava no teto de outro carro dos sonhos, claramente tentando demonstrar o seu poder e que as exigências da lei não o afetavam, estava acima disso.  Que exemplo não? Em um país que vive diariamente problemas com a corrupção ter um ídolo desse porte com tal postura só alimenta o pessimismo com o futuro da nação e sentencia de que muita coisa está errada.
 
 
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É engraçado que o egocentrismo é tamanho que o estúpido não percebe que dificilmente ganhará uma Copa do Mundo nessas condições, o que diminuirá a importância de sua carreira.
 
Infelizmente, pelo que se pôde averiguara até aqui, Neymar será símbolo sim, mas não símbolo do que deveria, do que o brasileiro precisa, mas símbolo de uma geração alienada, ignorante, deslumbrada.
 

 

Símbolo de um perfeito babaca. 

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