RESENHA: Crônica de uma Morte Anunciada


Título: Crônica de Uma Morte Anunciada.
Livro único.
Autor: Gabriel García Márquez.
Páginas: 177.
Veredito: Dinâmico, envolvente, enxuto. Leitura obrigatória de um fôlego só. 
  
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“’No dia em que o matariam, Santiago Nasar levantou-se às 5h30m da manhã’. Fatalidade, destino, o absurdo da existência humana. O que explica a tragédia que se abateu sobre o protagonista de Crônica de uma Morte Anunciada? Neste romance curto de construção perfeita, García Márquez monta um quebra-cabeça cujas peças vão se encaixando pouco a pouco, através da superposição das versões de testemunhas que estiveram próximas a Santiago Nasar no último dia de sua vida.”

“Em que e em quem acreditar? Como descartar a parcialidade das versões e ‘o espelho quebrado da memória’ dos envolvidos.”

Como conseguir prender a atenção do leitor revelando logo de cara que o protagonista morre no final por um crime que não cometeu? Reconstituído as horas antecessoras de sua morte revelando personagens e ambientação cativantes entremeadas por boas surpresas. Isso requer uma escrita ágil e envolvente que consiga fisgar a curiosidade do leitor em poucos parágrafos, pois a falta de conectividade instantânea pode provocar desmotivação em prosseguir com a leitura uma vez ciente das informações cruciais. Uma proposta ousada e por isso arriscada que deve contar com o espírito criador em estado de ebulição e um entusiasmo crescente conforme a espessura que se dá a obra para conferir segurança destemida em pôr em prática tal estrutura narrativa. Felizmente é o caso e o resultado é exitoso. Tenho essa convicção (sobre a intensidade do poder criativo do autor durante a escrita) por estar ciente de que a obra foi uma quebra de um longo hiato do consagrado escritor na sua produção literária. Ele tinha abandonado a profissão para se dedicar a outras atividades e surpreendeu a todos ao anunciar um novo romance. Certamente o acúmulo de anos inativo represando capacidade criadora tão extraordinária desenvolveu uma vontade irreprimível de se expressar artisticamente gerando essa maravilha do campo das letras.

A reconstituição do fatídico dia se dá na forma de uma apuração jornalística na qual colhe-se relatos de personagens que mantinham contato com a vítima. Tais relatos apresentam algumas imprecisões devido aos efeitos do tempo nas lembranças dos entrevistados e necessitam de habilidades dedutivas e comparativas, com a dos outros depoimentos, para uma descrição plausível dos últimos passos do protagonista.

Como mencionado, o sucesso do texto está vinculado a captura da atenção do leitor rapidamente e o estilo adotado da narrativa, sóbrio, sentenças curtas, por vezes coloquial, sem o apelo de grandes digressões, sem o uso de construções de frases complexas e de difícil absorção, é extremamente eficaz quanto a esse objetivo, no meu entender. O estilo também mantém coerência com a premissa de uma elaboração de um texto jornalístico já que tal perfil de texto segue as características mencionadas.   

O autor demonstra uma técnica incrível ao aplicar um ritmo célere sem comprometer a profundidade exigida para se gerar envolvimento, empatia, e sem confundir o leitor com as diversas minúcias que traz sobre os tipos abordados e do vilarejo. É quase um organismo vivo que se engrandece instintivamente ao se nutrir do maná certeiro. Cada palavra, informação, detalhe uni-se ao volume consumido com uma espontaneidade assombrosa, como se não houvesse outro caminho a se trilhar, outro texto a se unir, outra lógica a se seguir. Estabelece-se uma trilha formidável composta por uma escrita precisa e saborosa cuja travessia até o seu desfecho é irresistível. Não é de se admirar percorrê-la em uma única leitura. 

Outro aspecto que contribui para a leitura viciante é a sensação de constante urgência que elementos do roteiro traz desde o início da narrativa: descobre-se que a morte investigada poderia ser facilmente evitada, pois era pública, quase todos sabiam quando, onde, como e por quem seria executada, mas mesmo assim nada se fez. Passa-se o livro inteiro com a sensação de que bastaria encontrar a pessoa certa no momento certo para se evitar o mal e você passar a torcer por isso, mesmo já ciente do final trágico. Eis a maestria. Apesar de se revelar todos esses detalhes do enredo, isso não prejudica a experiência de leitura, pois é aquela velha história: não importa o final, mas, sim, a jornada. É interessante perceber os tipos de entraves que impedem de se transmitir uma notícia tão vital ao personagem, de como são sutis e plausíveis, e que tornam crível tamanho absurdo. 
Apesar de se ter um protagonista não se trata de uma de estória que se prenda e dependa inteiramente de um personagem. Não é a estória que está a serviços dos personagens, mas o inverso. Santiago Nasar poderia ser qualquer pessoa que mesmo assim a crônica seria possível de se realizar sem alteração da proposta, no máximo com algumas variantes. Todos os indivíduos apresentados traz sua parcela de contribuição para se montar um mosaico sobre um microcosmo página após página mais ampliado e familiar.  
É uma leitura saborosíssima que encanta pela simplicidade que somente os grandes trabalhos alcançam: de fácil assimilação, mas que gradualmente revela camadas complexas que surpreende o leitor ao se vê plenamente capaz de entendê-las quase sem se dar conta disso. O único defeito é que um lazer de pouquíssimas páginas. 

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