RESENHA: O Espadachim de Carvão e As Pontes de Puzur

Olá, cartolitos.

O que saiu na Cartola essa semana foi o segundo volume da saga de literatura fantástica  brasileira O Espadachim de Carvão, de Affonso Solano.  

Evidentemente essa cartola não é tão biruta como os produtores de Ninja 2 – A Vingança de publicar uma resenha do segundo livro sem ter feito a do primeiro, que você pode conferir aqui.

Nessa continuação, O Espadachim de Carvão e As Pontes de Puzur, nos deparamos com o jovem e habilidoso espadachim Adapak, filho das potestades do fantástico e hostil planeta Kurgala, convivendo com sua parceira amorosa, a capitã do navio onde passar a viver escondido dos olhares da população do entorno que certamente ficaria perturbada ao ver figura tão exótica e improvável, Sirara, após os eventos do primeiro volume que o fez se retirar de uma ilha sagrada, local que convivia com um dos seus pais mitológicos, para percorrer os continentes do conturbado planeta atrás de respostas que explicassem a caçada de legiões de mercenários por seu sangue e o porquê de repetirem, incessantemente, a misteriosa palavra “Ikibu”.

P

Se no primeiro volume a narrativa estruturou-se de modo a contar os principais eventos sem seguir a linha cronológica clássica, início, meio e fim por meio, início e fim, este segundo livro também se esquiva de caminhar por linha reta, apesar dos eventos que envolvem os personagens serem cronologicamente interligados no tradicional molde causa e efeito. Em As Pontes de Puzur há a alternância de arcos, com um capítulo atendo-se as ações do Espadachim no presente e outro, logo na sequência, detalhando as aventuras e encrencas do Ushariani larápio Puzur que transcorreram em geração remota.

E essa forma de conduzir a narrativa considerei mais bem sucedida que na estória anterior. Na citada, entendi que a escolha contribuiu para gerar mais confusão do que saudável estranhamento, embora também tenha conseguido gerar esse efeito, por se tratar de um livro de introdução de um universo muito particular, com espécies, terminologias e mitologia bem distintas. Por se tratar de uma continuação direta, e com isto supõe-se que os interessados tenham lido e aprovado a primeira, essa segunda parte se beneficia por contar com leitores já familiarizados com o universo o que tornaria cabível replicar o modelo adotado no livro de estreia, porque já não precisaria lidar com o entrave que aquela ocasião em específico apresentava e provavelmente lograria melhor êxito, mas aqui decidiu-se trilhar via menos engenhosa e normalmente é que a oferece menos riscos. O que não é uma crítica, afinal, se o objetivo era oferecer uma leitura menos indigesta, creio, como já apontei, que foi bem sucedido e não se tratou de uma simplificação ou empobrecimento narrativo ultrajante.

O curioso dessa continuação é que o verdadeiro protagonista não se trata do personagem que nomeia a série, mas o tal Puzur do subtítulo.

P2

Os capítulos que se dedicam a contar a sua jornada são maiores e com ocorrências mais interessantes, grandiosas, em relação aos perigos que Adapak enfrenta o que pode ser decepcionante pra quem espera ver muito mais das habilidades do espadachim em ação.

Mas eu não considerei isso um problema. Achei extremamente positivo, porque eu tenho predileção por enredos que não dependam única e exclusivamente de um personagem para desenvolver a dinâmica. Quando isso ocorre perde-se o fator imprevisibilidade, aumenta as chances de um prejudicial monotema e da ocasionalidade de inconsistências absurdas apenas para garantir a preservação da estrela maior no roteiro. É quando surgem interjeições do tipo:

“Nossa! Mas que mentira!”, “Como ele sobreviveu?!” , “Como ainda está andando?”.

P3

Não é o caso de se afirmar que todo roteiro que se utiliza de tal fórmula infalivelmente será ruim ou não deveria existir. Claro que há boas estórias nesse molde e que se mostram mais adequadas para contar determinados eventos, mas prefiro que um personagem esteja a serviço da estória do que a estória a serviço de um personagem.  E no caso de um universo fantástico como o do Espadachim de Carvão vem mais a propósito um ideal narrativo que permita a introdução de novas figuras e a consequente expansão da mitologia do que um modelo que se restrinja a ficar amarrado em torno de apenas um personagem. Imagine o desperdício e a frustração dos milhares de fãs das Crônicas de Gelo e Fogo ou do Senhor dos Anéis se os respectivos autores optassem em contar essas sagas sob o ponto de vista de apenas um dos protagonistas?  Um universo fantástico pede por grandiosidade e para isso, no meu entender, é necessário um enredo que se dedique a desenvolver uma boa gama de personagens, concedendo e retirando espaços de forma equilibrada.

A ação manteve as boas virtudes da edição anterior impondo dificuldades e condições diversas para que os protagonistas combatam os seus inimigos ou escapem de ardis evitando repetições desgastantes e previsíveis.

Destaco o último terço do livro onde Puzur e sua ajudante se veem presos nas instalações de uma figura surpreendentemente maligna e que pretende sacrificá-los para um ritual macabro. Dinâmica e composição de cenário muito bem elaborados que proporcionam boa dose de suspense e adrenalina.

“Prefiro que um personagem esteja a serviço da estória do que a estória a serviço de um personagem.”

P7

Também se constata novamente a presença de personagens esféricos e de personalidade marcantes, isto é, que não se resumem a exercer apenas uma função ou pensar e agir de forma previsível e caricatural. Há humanidade ao invés de robotização. Há hesitações, arrependimentos, explosões de fúria, receios, rompantes de coragem, amadurecimento. Há evolução de personagens durante a leitura.

O primeiro volume teve fortes traços feministas ao desenvolver papeis que cuidassem em quebrar algumas convenções de gênero consideradas depreciativas do ponto de vista feminino, como ultradependência a figura masculina, ambições que se reduzam somente a se unir amorosamente com o protagonista, invencível futilidade quanto a aparência, consumismo desenfreado e supérfluo, excessiva ingenuidade e recato. Neste segundo volume o elenco dessas personagens femininas mais palatáveis ao espírito de nosso tempo (na verdade mais palatáveis ao bom senso, a realidade em si, afinal, mulheres de conteúdo, de coragem e com grandes e nobres aspirações sempre existiram, não é uma novidade do século XXI), por questões compreensíveis de roteiro, ficou desfalcado ou teve a participação de personagens antigas, como a Sirara, bem reduzida.

Para reequilibrar esse núcleo, creio, elaborou-se a figura de Laudiara, uma jovem cocheira marcada por várias tragédias que tenta a muito custo sobreviver nas ruas impiedosas da cidade de Isin, situada no continente de Larsuria. Ela acaba se envolvendo com o famoso e misterioso ladrão de Kurgala,Puzur, que tem a capacidade de se mover por distâncias impensáveis a velocidade impressionante por portar as lendárias espadas Igi, Sumi e Lukur (as que Adapak utiliza em combate) por obra do acaso, durante uma fuga improvisada de mais um roubo bem sucedido do embusteiro.

P5

Laudiara tem personalidade e ocupa bem a vacância deixada pelas personagens que já cumpriram o seu papel ou que foram preservadas para eventos futuros, representando um tipo feminino relevante sem promover qualquer degradação de gênero. Mas é importante ressaltar que não se trata de mera cópia das antecessoras, ela tem o seu próprio estilo e é carismática.

No entanto, algo que me incomodou na personagem, ou pelo modo que foi usada, é que em várias ocasiões ela serve de escada para Puzur/narrador tecer suas explicações de forma didática sobre determinados assuntos. Eu nem me incomodo pelo recurso em si, embora tenha achado repetitivo, mas sim da execução dele. Pois em algumas situações os questionamentos proferidos pela cocheira são óbvios demais e irreconhecíveis na boca de uma jovem e geniosa humana, parecem tópicos retirados de um texto com tom impessoal, acadêmico, burocrático.

Um ponto que achei frustrante é referente a expansão do universo, naturalmente algo esperando ao se tratar de uma continuação. Se por um lado dá espaço a outros personagens é positivo nesse aspecto, focar demais neles e não dá muita atenção ao entorno, as figuras periféricas, simples, a parte física dos ambientes, é prejudicial para a imersão, é pouco instigante. Tenho a opinião que para atingir esse fim seria necessário investir mais páginas na descrição do cotidiano das comunidades que os protagonistas se veem cercados. Por exemplo: como realizam determinadas atividades, como as características peculiares de Kurgala influencia na formação de hábitos e costumes, quais as vantagens e desvantagens que as espécies têm em praticar tarefas reconhecíveis em nosso mundo?

“Ficção é isso: sonho, ideal; logo, viciante, eis o motivo de as pessoas se entupirem de entretenimento”.

P8

Pode parecer algo menor, bobo, mas esses pequenos detalhes, esse lado prosaico, ajuda a estabelecer vínculo, empatia, conexão e ao mesmo tempo despertar curiosidade, o desejo de querer se aprofundar mais no retrato do universo, porque uma parte do leitor se reconhece ou reconhece alguém de seu círculo próximo exercendo a hipotética tarefa banal, por isso, de fácil assimilação, o que gera identidade, outra se entusiasma em constatar a transformação de algo normalmente tedioso em uma atividade mais interessante, surpreendente, fazendo com que uma lembrança que não provocava emoções memoráveis, quando muito, anseios desanimadores, ganhar novos contornos, cores, vida. É como se deixasse a vida por um breve instante mais suportável, inserindo o leitor numa camada de deleitável sonho.

Ficção é isso: sonho, ideal; logo, viciante, eis o motivo de as pessoas se entupirem de entretenimento.

Talvez um desavisado que me lê pode até formular a ideia de que o autor provavelmente tinha preocupações maiores, um longo enredo a desenvolver e a observância de questões mercadológicas (que ganham ainda mais peso no disputado e quase inacessível mercado editorial brasileiro) como o número de páginas que certamente influencia no custo final.

P4

Se fosse o caso de quantidade inviável de páginas e daí a necessidade de promover cortes, eu compreenderia perfeitamente, mas esse argumento não é cabível aqui.

O primeiro volume da série tem 256 páginas e o que está sendo analisado, 192. Ou seja, 64 páginas a menos. O que é motivo de zombaria do próprio Solano e de seus parças do Matando Robôs Gigantes (MRG) ao se avaliar que a cada continuação a brochura diminui de espessura. Por isso entendo que havia espaço para se explorar outros aspectos que ao se somar ao conjunto da obra demonstrariam relevância notória. Seguramente elevariam a qualidade do texto.

Complemento observando que a retratação do mundo fictício de Kurgala gera desconforto excessivo, porque sempre pende para o lado mais asqueroso, sórdido, vil, rude, áspero, causando no leitor profunda desolação. É difícil imaginar alguém, e novamente o próprio Solano reconhece, que gostaria de viver em um lugar desses. É compreensível que se tenha ameaças e situações embaraçosas, pois não estamos lidando com um conto de fadas, mas penso que um dos motivos dos ambientes fantásticos despertarem fascínio no público seja a capacidade de encantamento em razão da beleza majestosa e do instigar da imaginação por causa das possibilidades únicas e prazerosas que podem proporcionar.

P9

Isto posto, a avaliação geral de o Espadachim de Carvão e As Pontes de Puzur é de que é uma obra que mantém as principais virtudes do primeiro volume, tem o mérito de não cair na armadilha de se prender a somente um personagem, tem um enredo bem amarrado, com boas surpresas no final, apresenta melhorias de estrutura narrativa em relação a primeira parte, a ilustração, cores e design de capa achei de muito bom gosto, belíssimos, porém volto a questionar a falta de orelhas e de ao menos uma breve biografia do autor; relembro que há problemas em termos de expansão e representação do universo, o que prejudica a experiência de imersão e que há abuso, claro, segundo o meu entendimento, da repetição de recursos narrativos para esmiuçar alguns detalhes do enredo, comprometendo, ainda que ligeiramente, maior envolvimento com uma das personagens.

Portanto há mais problemas nesse volume do que com o antecessor, mas concluo que é uma leitura recomendável dada a maturidade de escrita demonstrada pelo autor e pela competência de manter a qualidade nos principais atributos que se espera do gênero.

Sugestão de leitura


Você que curte um bom livro de mistério e suspense, indico a obra “Angústia na Cidade do Caos: crônicas de uma era indecente”, lançado pela Editora Multifoco.

Um rapaz misterioso achado desacordado e sem memória, próximo de um cemitério clandestino de uma comunidade assolada pelo sangrento conflito de facções criminosas, inicia jornada para descobrir os enigmas envoltos de seu passado. Porém, precisará encontrar respostas para questões ainda mais complicadas conforme percebe-se protagonista de eventos sinistros e inconcebíveis para o senso comum de realidade.

Saiba mais a respeito aqui.

Compre o livro aqui.

Adicione o livro na lista de desejados no Skoob. E no GoodReads.

Anúncios

3 comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s