Você gostaria de um café com Jerry Seinfeld?

Mesmo para quem não conhece o cidadão ou não se entusiasme muito com o seu trabalho dizer “sim” para a pergunta título certamente irá render um bom negócio, uma experiência marcante. Principalmente se é fã de automobilismo, curte conhecer novos lugares a base de cafés apetitosos e papo descontraído.

Mas primeiro vamos falar um pouco desse cara, caso não faça ideia de quem seja, afinal, aceitar convites de estranhos é… estranho…

O cara

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Bora pra um café com Seinfeld? Crédito: Folha Uol

Ele é um comediante americano que iniciou a sua carreira no transcorrer dos anos que voltaram a ficar em alta, por causa da geração que viveu sua infância-juventude no período não conter o saudosismo; saudosismo que se tornou transbordante no instante que foi percebido que realmente ninguém está imune aos efeitos do envelhecimento inexorável: 80.

Comediante de stand up (sim, não é um fenômeno que surgiu nos anos 2000, o formato deve ser mais antigo que o Temer [isto se não considerarmos a hipótese de ele ser, de fato, um vampiro]) que com seu estilo “relaxado”, centrando sua comédia na demonstração do humor contido em temas mundanos, e que por isso poucas pessoas se veem pensando a respeito (o que talvez explique o porquê do público se sentir atraído: por se surpreender positivamente com a revelação de uma comicidade que parecia óbvia o tempo todo, mas que ninguém tinha indo a fundo para desnudar), obteve grande sucesso e a chance de produzir um seriado, uma sitcom estampando o seu nome em uma tradicional e popular emissora de TV nos EUA (lembro que a TV era bem mais relevante em época de internet restrita aos domínios militares). O que significava a glória e o auge para qualquer humorista.

O “nada” que mudou tudo

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Uma das imagens promocionais da aclamada Seinfeld. Crédito: TV Insider

Antes que receba censura justificável dos fãs da série que se tornou uma das mais aclamadas pela crítica mundial e pelo público, tida para muita gente como a melhor sitcom de todos os tempos, Jerry contou com o talento e o humor imprevisível de Larry David, outro comediante stand up notável e roteirista de esquetes de mão cheia, chegou a produzir para o Saturday Night Live antes de se aventurar na parceria com Jerry para elaborar e escrever a série Seinfeld.

O termo “aventura” é correto, porque se é uma glória emplacar uma série em um canal de prestígio, glória maior é conseguir manter o projeto no ar por tempo razoável, com audiência e retorno financeiro, o que não é uma tarefa fácil e garantida no disputado mercado americano que todos os anos pipocam inúmeras séries que veem e vão, muitas vezes sem deixar rastro (naquela época não tinha Netflix).

O projeto Seinfeld foi encarado pela NBC como uma aposta devido a inexperiência de Jerry em produzir e escrever para o formato de sitcom, Larry David, apesar de mais cascudo, não tinha também grandes experiências com o gênero, e pelo conceito inusitado que a dupla queria inserir na atração: uma série sobre o “nada”.

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Jerry Seinfeld em sua era de ouro. Crédito: Kempt

Tal fato se evidencia pelo estúdio ter contratado apenas 4 episódios para a primeira temporada.

Quatro episódios!

Ninguém, principalmente o velho David, acreditava que a série iria durar mais que isso. Mas apesar dos pesares, os episódios foram feitos.

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Seinfeld, Kramer, Elaine e George em ação na icônica lanchonete. Crédito: Consequence of Sound

Mas do que se trata ou tratava exatamente a série Seinfeld? Como assim uma série sobre o nada?!

A série narra o cotidiano de um comediante, Jerry Seinfeld (isso mesmo, Jerry interpretava a si próprio. Ele era ator? Não. Ele se preparou para atuar? Muito pouco. Mas ele fazia papel dele mesmo, então…), que mora sozinho em um apartamento em Manhattan e ganha a vida fazendo apresentações de stand up. Com suas aventurosas amorosas e as confusões que se envolve com os seus amigos pirados (não literalmente, força de expressão, embora em alguns casos o adjetivo não pareça exagero), George, Kramer e Elaine, tira material para compor suas piadas para os shows.

O que é bem legal de acompanhar nas primeiras temporadas é que os inícios dos episódios eram reservados a um trecho de uma das apresentações de Jerry. Nestes trechos ele utilizava piadas que o expectador perceberia a fonte de inspiração no transcorrer da trama que viria a seguir.

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O quarteto que ganhou o mundo. Crédito: Variety

Bem sacado.

Era um dos aspectos originais que a série trazia, uma de suas inovações em termos de linguagem, de formato em se tratando de sitcom.

Mas o que fez o programa ser taxado como a série sobre o “nada” é que os personagens não apresentavam um objetivo claro a se alcançar, não havia uma trama paralela e determinante para impor novos acontecimentos, impor a condição de seguir por rumos específicos para que a série não perdesse coesão, sentido.

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O inegável talento das estrelas de Seinfeld amplamente reconhecido. Crédito: http://www.slate.com

Para fazer uma comparação, até Friends, que surgiu pouco tempo depois e a princípio foi encarada como uma cópia de Seinfeld, tinha uma trama principal que afetava todos os personagens, que era o relacionamento entre Ross e Rachel.

Seinfeld não.

Não era dependente de nenhum arco que não fosse a circunstância de momento. Estruturava-se em apenas exibir as conversas aleatórias de Jerry com os seus amigos, conversas que culminavam em pequenas confusões que por sua vez inspiravam novo material para o show de comédia.

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No apartamento em Manhattan, embora as gravações fossem em Los Angeles. Crédito: The Wrad

Era uma série sobre 4 pessoas mundanas vivendo um dia após o outro, após o outro, após o outro.

Se analisar o estilo de comédia praticado por Seinfeld nas suas performances de stand up, o conceito da série capta perfeitamente o universo que aborda.

O pico da galáxia

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Jerry “dando um pulo” até a Casa Branca. Crédito: The Independent

Seinfeld alcançou o estrelato, o panteão de obras célebres da TV mundial, não só pelo brilhantismo de seus criadores, mas por uma pequena dose de sorte, já que não alcançou audiência extraordinária nas primeiras temporadas (se manteve firme por atingir um público rentável aos anunciantes e por ter conquistado a simpatia de um dos executivos fortes da NBC), e também pelo talento do grupos de atores que depois que estrelaram a série tiveram seus nomes definitivamente catapultados como grandes astros do show business.

A que se mantém mais em evidência é a carismática e competente Julia Louis Dreyfus (Veep), que só de Emmy ganhou 8 estatuetas. Ela interpretou a personagem Elaine Benes.

Muitos fãs tem o personagem de Jason Alexander (fez participações especiais em diversas séries como Two and Half Men e Community), o sovina, egoísta, mesquinho e estúpido George Costanza, como o melhor da série, talvez pelo personagem personificar as neuroses de Larry David. Não é de causar surpresa que tenha uma respeitável carreira teatral como ator de musicais, ganhou um Tony por sua atuação em Jerome Robbins’s Broadway, porque a potência de sua voz é marcante e um traço característico da ruína infalível de George na maioria dos episódios.

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Bate papo com Stephen Colbert. Crédito: Punchland

O encarregado de inserir o humor universal, do tipo mais pastelão, físico, embora sempre na medida certa para não fugir do espírito “pés no chão” da famosa sitcom, foi Michael Richards (assim como Alexander, fez diversas participações especiais em séries) o vizinho trambiqueiro e folgado de Jerry, Cosmo Kramer. Seu período de maior fertilidade em termos de premiações foi durante as 9 temporadas do programa.

Seinfeld ganhou diversos prêmios, se tornou fenômeno cultural e fez Jerry Seinfeld milionário, muito milionário, ao ponto dos outros comediantes o colocarem como o exemplo a ser seguido no que tange a condução da carreira; o comediante mais bem sucedido que se tem notícia.

O café na Netflix

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Humor, carros e café. Precisa de mais? Crédito: Movie Fone

O seriado terminou em 1998 e claro que depois disso Jerry Seinfeld foi curtir a vida e realizar alguns projetos pontuais esporadicamente, mas deixemos esse período de lado para nos centrar em sua empreitada mais recente na Netflix, o ponto inicial do texto sobre o cafezinho com Seinfeld (a essa altura o café já esfriou, não tem problema. Ele é que paga mesmo. Bota mais outro aí!).

É um programa de entrevista itinerante onde Jerry reúne os temas que mais aprecia na vida: carros, comédia e café.

O nome do programa parece ser autoexplicativo, Comedians in Cars Getting Coffee.

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Carros com personalidade é uma das atrações “Getting Coffee”. Crédito: Jewish Humor Central

Ele convida os seus parças do mundo da comédia, que nem sempre são comediantes profissas mesmo, para um cafezinho com uma conversa descontraída sobre os assuntos que der na telha, novamente a aleatoriedade das conversas dando as caras, que geralmente recaem sobre a arte de fazer comédia ou assuntos pitorescos do cotidiano.

No entanto Jerry vai buscar o felizardo na casa do próprio, conduzindo, na maioria das vezes uma obra prima automobilística que ele tenta escolher de acordo com as características que o convidado apresenta, segundo sua concepção (por isso de vez em quando surgem surpresas fora do esperado, como latas velhas carcomidas de ferrugem, ônibus, lancha etc). São carros de colecionador, inacessíveis para a maioria dos mortais, clássicos dos anos 60, 70, o icônico Aston Martin do 007 marca presença em um dos episódios, ou joias modernas. Sempre expondo breves dados técnicos das belezuras no início de cada programa.

O primeiro “barato” da entrevista é conferir a reação do convidado ao se deparar com a raridade na porta de sua casa e a constatação que será devidamente transportado até o local do cafezinho (alguns têm o privilégio de dirigir no caminho de volta). O bate papo já começa no percurso até a cafeteria, com câmeras e microfones instalados dentro do carro registrando o que seria correto afirmar a primeira parte da entrevista.

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Diversão garantida com o “cafezinho com Jerry Seinfeld”. Crédito: Businessinsider

O segundo “barato” é sentir o clima da cidade de ocasião, com as paisagens de fundo, o fluxo do trânsito, as abordagens fora de roteiro dos transeuntes que se estarrecem ao ver duas personalidades famosas dividindo faixa de trânsito ao seu lado (há um episódio em que um policial aborda Jerry e aplica uma multa por excesso de velocidade).

A parte do restaurante é a que te dá vontade de sair dos lençóis e marcar um programinha com alguém para conhecer algum lugar novo. Sempre ambientes aconchegantes repletos de guloseimas, embora o atendimento nem sempre seja um primor e a qualidade das refeições, segundo os ilustres clientes, as vezes deixam a desejar.

E talvez isso mesmo que faça o programa, que tem de 15 a 20 minutos de duração, ser tão aprazível, porque, tirante a parte dos carros top, tudo é tão natural, familiar, no sentido de nos reconhecer experimentando aquela situação, de sabermos a sensação agradável de uma conversa relaxada com uma pessoa querida em um lugar atraente. Você vai querer ligar (digo, trocar mensagem) pra aquela pessoa que há muito tempo não vê, mas que teve boas experiências, e tentar reprisar bons e velhos tempos. Mesmo que não o faça, mas que ficará tentado ficará… É um dos aspectos, uma das sensações, que mais me agrada ao assistir o programa.

Melhores episódios (na minha humildíssima opinião)

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Uma das raras entrevistas de Michael Richards. Crédito: Hollywood Reporter

Pra finalizar, naturalmente que para os fãs de Seinfeld as entrevistas mais marcantes são com os artistas que atuaram ou escreveram a série, ao menos do núcleo principal, que são os casos de Larry David, Julia Louis Dreyfus, Michael Richards (até onde chequei, só ficou faltando o Jason Alexander).

Mas cito outros episódios que achei bem maneiros:

  • Alec Baldwin (a analogia com o farol verde é impagável);
  • Stephen Colbert;
  • Sarah Jessica Parker (simpaticíssima);
  • Trevor Noah (pelo histórico de vida dele);
  • Chris Rock (pelo probleminha com a polícia);
  • Tina Fey;
  • Aziz Ansari;
  • David Letterman (porque ele dispensa apresentações);
  • Steve Martin;
  • Will Ferrell;
  • Barack Obama (o café é na Casa Branca).

Por hoje é só Cartolitos.  Até semana que vem.

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