RESENHA: Benjamin Franklin, uma vida americana

O que sai da Cartola essa semana é uma biografia de um dos pais fundadores dos EUA, Benjamin Franklin, uma vida americana (Companhia Das Letras), por Walter Isaacson.

Pensar em fazer uma biografia do rosto que estampa com seu sorrisinho maroto o dólar americano é uma ideia que pode intimidar muito biógrafo, não só pela importância que Franklin tem na formação da identidade americana que conhecemos hoje, com todas as suas qualidades e defeitos, mas pela abrangência de seus feitos, de seus ofícios, cargos, ao longo de sua vida. É inviável fazer uma boa biografia sobre Benjamin Franklin que renda menos do que 300 páginas e muitas e muitas e muitas horas de pesquisa.

Franklin foi, e obtendo destaque em todas as funções, umas com mais brilho do que outras:

Resenha Benjamin Franklin, uma vida americana
Capa da edição da Companhia Das Letras.
  • Impressor/jornalista;
  • Empreendedor;
  • Escritor;
  • Agente postal;
  • Político;
  • Cientista;
  • Diplomata;
  • Líder comunitário (pelo arrojo de suas ideias e desinibição, não por ter ocupado um cargo específico).

Como homem das letras foi responsável por influenciar gerações com sua pregação sobre frugalidade, trabalho, bons hábitos domésticos, convicções políticas, em suas colunas diárias nos jornais que administrou, e principalmente com o Almanaque do Pobre Ricardo, uma coletânea de anedotas e ditados, em tom humorístico, norteados pela filosofia “dar-se bem fazendo o bem: ganhar dinheiro e promover a virtude”.

A publicação se tornou um sucesso de vendas por vários anos, muito pela habilidade de escrita de Franklin, mas também devido ao engrandecimento de sua reputação perante a opinião pública que passou, com o transcorrer do tempo, conforme a repercussão de suas ações, a vê-lo como uma pessoa bem sucedida, de origem humilde, como a maioria da população a época, e um sábio.

Resenha Benjamin Franklin, uma vida americana 7
Capa do Almanaque Pobre Ricardo. Crédito: commons.trincoll.edu.

Claro que nem todo mundo morria, ou morre, de amores pela filosofia embutida no almanaque engendrado por Franklin, especialmente as crianças menos inclinadas a acordar cedo. Um relato curioso sobre Pobre Ricardo emitido pelo comediante e ator Groucho Marx:

“Dormir cedo, acordar cedo, faz um homem você-sabe-o-quê. Isso é puro blá-blá-blá. A maioria das pessoas ricas que conheço gosta de dormir tarde e despedirá o criado se for perturbada antes das três da tarde (…). Você não vê Marilyn Monroe levantar-se às seis da manhã. A verdade é que não vejo Marilyn Monroe levantar-se a qualquer hora, o que é uma pena”.

Quanto a fama de sábio, isso se deve ao maior de seus feitos no campo da ciência: “arrebatou o raio dos céus”. Inventou o para raios ao descobrir como atrair cargas elétricas, ao entender do que são constituídas. Já deve ter ouvido, lido ou visto uma reconstituição sobre o episódio da pipa, um raio sendo atraído por um objeto pontiagudo até o brinquedo de papel e madeira (minha primeira lembrança disso é um episódio do Pernalonga).

Mas Franklin não se limitou apenas a esse invento, que seria suficiente para colocá-lo em um pedestal e se destacar de milhares que não fazem e nunca vão fazer nada de significativo para o coletivo, foi autor de diversos. Por exemplo, você que me lê com o auxílio de suas lentes bifocais, agradeça a Mr. Franklin.

Resenha Benjamin Franklin, uma vida americana 5
Benjamin Franklin foi escritor, empreendedor, cientista, político e diplomata. Crédito Share América.

Uma frase que sintetiza maravilhosamente os seus feitos mais notáveis é de autoria do estadista francês Turgot:

“Ele arrebatou o raio dos céus e o cetro dos tiranos”.

A segunda metade da sentença se deve a sua contribuição valorosa para a elaboração e implementação da primeira constituição republicana do mundo e do forjar de aliança com os franceses na guerra da independência contra a Inglaterra – apoio fundamental para a vitoria americana.

Depois desse breve cartão de visita da figura em questão, hora de analisar os pontos fortes e fracos, claro, na minha modesta opinião, sobre o trabalho de Walter Isaacson.

Resenha Benjamin Franklin, uma vida americana 6
Crédito: Pensador.

O que achei positivo

O que espero sempre de uma biografia é honestidade, primeiramente. Que não seja uma peça publicitária, um panfleto meloso exaltando virtudes excelsas, inigualáveis da figura em questão. E como é notório o patriotismo por vezes exacerbado dos americanos esse risco aumenta um pouquinho quando de trata de um biógrafo originário da terra do Tio Sam.

Mas felizmente isso não ocorre. Benjamin Franklin, uma vida americana, faz um relato honesto, amplo, sem receio de revelar imperfeições de um retrato famoso. Expõem de maneira equilibrada todas as virtudes do homem Benjamin Franklin, sua inteligência, seu senso de comunidade, seu humor, sua moderação, os seus acertos quanto a defesa de determinadas pautas, do ponto de vista histórico engrandecedoras, como seu posicionamento favorável as vacinas (embora tenha sido contrário inicialmente, mas soube reconhecer seu equívoco) e suas imperfeições: o relacionamento frio, esquisito, com alguns de seus familiares, o seu ego por vezes robusto, a incapacidade de superar alguns rancores, a sua falta de instrução mais refinada (no entanto, isso também pode ser considerado como um mérito, pois mesmo sem formação acadêmica erudita, foi capaz de fazer descobertas científicas que muitos letrados em Harvad não foram capazes).

Mas esse equilíbrio e franqueza não surpreendem se considerarmos a trajetória de Isaacson como biógrafo. Ele é considerado por parcela expressiva da crítica como o melhor de seu meio na contemporaneidade, autor de Best Sellers aclamados por público e analistas: Steve Jobs – A biografia, Einstein, Sua vida, Seu universo, entre outros.

Resenha Benjamin Franklin, uma vida americana 4
O biógrafo Walter Isaacson. Crédito: Livraria da travessa.

O trabalho de pesquisa é excelente. Cinquenta páginas do volume são consumidas apenas com fontes e notas. O livro é repleto de citações de diversas origens, jornais, anotações de diários, livros acadêmicos, biografias, etc. Material que sem dúvida contribui para a construção de um panorama rico sobre a persona Benjamin Franklin e seu impacto na cultura norte americana.

O estilo da escrita, a linguagem, é bem acessível. É a do tipo que faz com que consuma dezenas de páginas sem perceber. É muito semelhante, senão idêntica, ao estilo que se encontra em semanários, revistas. É também semelhante aos textos de internet, no que diz respeito a estrutura, não no conteúdo raso ou impreciso que pululam todos os dias na web (mas é claro que não é uma regra, há muitos trabalhos competentes espalhados pela rede), pois os capítulos são fragmentados em tópicos, subtítulos. Sem dúvida as experiências de Walter Isaacson na área de comunicação, foi presidente da CNN e editor administrativo da revista Time, colaborou para que formulasse o estilo.

E a edição é bem feita. A capa você pode identificar a quilômetros por remeter a imagem icônica de Franklin estampada na nota de dólar e destaco o papel diferenciado das imagens ilustrativas que preenchem o miolo do livro.

Resenha Benjamin Franklin, uma vida americana 9
O retrato de Benjamim estampa a nota de dólar. Crédito: Ignore Limits.

O que achei negativo

Se a linguagem acessível, objetiva, sem floreios é um trunfo para manter o leitor cativado, interessado pela leitura, além de, claro, dos eventos e atos interessantíssimos da vida de Franklin, também é responsável, ao meu ver, pela falta de “sabor”, “tempero”, no relato de fatos importantes, por vezes tornando a narrativa por demais insossa.

O tom sóbrio é uma constante, não importa se relatando um encontro qualquer na Junta, um clubinho criado por BJ reunindo figuras ilustres das cercanias para discutir variados assuntos, ou os instantes derradeiros antes da eclosão da Guerra da Independência. Essa característica do estilo passa a sensação de que os eventos, de certo modo, são parecidos, desprovidos de personalidade, de características únicas. De repente, no meio da leitura, você percebe que já ocorreram diversos eventos, importantes, mas percebe se esforçando para lembrar claramente quais foram. Faltou mexer um pouco mais com as emoções do leitor, gerar suspense, apreensão, dramaticidade, elaborar ganchos narrativos mais atraentes.

Devo apontar que talvez esse estilo possa se tratar de uma metalinguagem, pois um dos assuntos recorrentes de Franklin era sobre as virtudes do ser frugal e sua escrita era correspondente, consciente ou inconscientemente, a esse aspecto. Será que Walter Isaacson quis reforçar para o leitor essa faceta do personagem emulando sua escrita?

Resenha Benjamin Franklin, uma vida americana 3
Franklin “arrebatou o raio dos céus”. Crédito: Cais da Memória.

E coloco talvez porque, confesso, este é o primeiro livro que li do autor, não tenho conhecimento se em seus demais trabalhos o estilo difere ou apresenta variações significativas.

De todo modo, intencional ou não, o estilo adotado tem, ou teve, como deficiências, segundo minha avaliação, os problemas apontados.

Outro ponto que me incomodou foi o excesso de centralização na figura dissecada. Evidente, a pessoa central de uma biografia deve ter mais destaque, mais achei que faltou conceder um pouco mais de espaço a figuras periféricas e a sociedade do entorno. Não consegui sentir, como ocorreu lendo outros trabalhos do gênero, o mundo ao redor com vida própria, com a autonomia que deveria ter, mesmo quando eventos chaves forçam Benjamim a fazer escolhas inadiáveis. Não consegui sentir o clima de tensão e revolta em época pré-revolucionária, por exemplo, o pânico e os horrores da guerra durante o conflito (embora se deva dá um desconto, porque o papel de diplomata obrigava Franklin a ficar distante do local do conflito); sentir-se plenamente ambientando ao período histórico. Não há muito espaço para a retratação de hábitos e costumes ou informações um pouco mais aprofundadas sobre questões como natalidade, mortalidade, índices econômicos, interesses do público, enfim, não visualizei vivamente retratos de centros populosos com transportes movidos a cavalo, o rocejar dos vestidos aprumados das mulheres no chão de terra, o odor da ceva consumida nos bares populosos com moscas atarantadas sobre os balcões úmidos. Tudo gira, como deve ser, repito, em torno de Franklin, mas acho que de modo exagerado.

Resenha Benjamin Franklin, uma vida americana 2 (1)
Crédito: Emais Rondônia.

As ilustrações também contribuíram para essa sensação de “bolha”. Como apontei acima, louvável a qualidade do papel na qual foram impressas, são belíssimas, mas achei que foram poucas e concentradas em uma única sessão.

Eu compreendo que tenho que relativizar um pouco essas questões, porque há a questão comercial.

O livro supera 580 páginas, as atividades e feitos de Franklin foram múltiplos e dedicar atenção maior as questões apontadas significaria um volume ainda mais denso, que refletiria no preço de capa, já salgada (o exemplar mais barato que achei foi de R$ 80,00. Na web, é possível achar por preços inferiores, mas não incluem a taxa do frete). No entanto, para amenizar essa questão em prol de um trabalho mais primoroso, creio que a solução seria optar por dividir o trabalho em 2 volumes.

Resenha Benjamin Franklin, uma vida americana 8
O famoso episódio da pipa retratado em quadro. Crédito: newsela.

Conclusão

Benjamin Franklin, uma vida americana, de Walter Isaacson, cumpre com a missão de fazer um retrato fidedigno do homem Benjamin Franklin e descrever competentemente os feitos que construíram a imagem que ficou incrustada no imaginário popular. A escrita é clara, agradável, acessível, mas também é responsável por alguns problemas que prejudicam uma melhor apreciação da leitura, como o de ser excessivamente sóbria, objetiva, insossa. Problemas que não tornam a leitura intragável ou que se destacam mais do que os méritos inegáveis.

Portanto, é um livro recomendável.

Sugestão de leitura

Você que curte um bom livro de mistério e suspense, indico a obra “Angústia na Cidade do Caos: crônicas de uma era indecente”, lançado pela Editora Multifoco.

Um rapaz misterioso achado desacordado e sem memória, próximo de um cemitério clandestino de uma comunidade assolada pelo sangrento conflito de facções criminosas, inicia jornada para descobrir os enigmas envoltos de seu passado. Porém, precisará encontrar respostas para questões ainda mais complicadas conforme percebe-se protagonista de eventos sinistros e inconcebíveis para o senso comum de realidade.

Saiba mais a respeito aqui.

Compre o livro aqui.

Adicione o livro na lista de desejados no Skoob.

Se gostou da resenha, curta, compartilhe, opine. Seu apoio é muito importante para o blog. Aproveito para convidá-lo a prestigiar a página oficial do Facebook.

Até a próxima.

 

 

 

 

Anúncios

1 comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s