Resenha: Viagem ao fim da noite

Caros leitores, colocando a mão dentro da Cartola Cultural, e remexendo o seu fundo mágico, o que saiu essa semana foi um clássico francês, a antítese de Marcel Proust, escrita por um cara bem polêmico, que se tornou maldito no mundo das letras e tal impopularidade prejudicou a apreciação de sua obra, que por muito tempo ficou escanteada, no ostracismo e, por vezes, injustamente depreciada.

O livro em questão é “Viagem ao fim da noite”, de Louis-Ferdinand Céline.

Por que maldito?

O “Viagem ao fim da noite” foi o livro de estreia de Céline.

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O jovem e promissor Louis-Ferdinand Céline.

E que estreia.

Estremeceu o mundo das letras com sua linguagem despojada, agressiva, tocando em assuntos triviais lado a lado com os de  mais alta importância. A obra despertou entusiasmo em expressiva parcela dos leitores e também crítica de outros tantos, dos mais puritanos quanto ao estilo de linguagem. Ou seja, gerou divisão. Para situar no tempo, “Viagem ao fim da noite” foi publicado em outubro de 1932.

Gerou divisão, mas não gerou indiferença.

Foi um sucesso editorial, campeão de vendas que nos primeiros meses após a publicação estimulou a escrita de nada menos do que 100 artigos. Entre os seus leitores ilustres figuram tipos como Henry Miller e Joseph Stálin (o elegeu como livro de cabeceira).

Mas por que Louis-Ferdinan Céline se tornou persona non grata, malquista, motivo de desprezo e até de uma certa recusa em se divulgar o seu trabalho mesmo este, independente de seus posicionamentos políticos, sendo bom?

Não muitos anos depois da publicação do livro que é considerado a sua obra-prima, em 1937, Céline escreveu uma série de panfletos antissemitas.

Viagem ao fim da noite
Capa da edição Companhia de Bolso, selo da editora Companhia Das Letras.

E pior: passou a defender os posicionamentos dos nazistas que estava em ascensão na Alemanha…

E essa simpatia só veio a se estreitar quando o século XX presenciou uma das cenas mais atemorizantes da história: Hitler fitando a Torre Eiffel junto com os seus aliados logo após invadir e dominar um dos maiores gigantes europeus, a França.

Céline frequentava as recepções de Otto Abetz, embaixador do Terceiro Reich, e escrevia com frequência para jornais pró-nazistas contribuindo para disseminar o ódio antissemita.

Como deve saber, a canoa virou.

Os nazis foram dirigidos ao precipício sob os comandos do líder insano e com mania de grandeza. Foram destroçados pelas forças dos Aliados, pela resistência feroz do Urso polar, pela determinação férrea do lorde da guerra e pelo engenho da Águia do norte, e tiveram que abrir mão dos territórios que dominaram. Incluindo, claro, a França.

Naturalmente, Céline caiu em desgraça por sua defesa odiosa ao discurso antissemita e pela colaboração as tropas que aplicaram a maior humilhação que a nação europeia em questão já sofrera. Porém, arguto que era, percebeu quando as forças Aliadas desembarcaram na Normandia, de que o jogo estava virando e conseguiu um salvo conduto dos nazistas para se retirar do país. Acabou se exilando na Dinamarca e foi onde recebeu a acusação formal da França reerguida de que era considerado um traidor.

Ficou um ano preso.

Escrevendo mais de mil cartas a amigos pedindo ajuda, dinheiro, inventando historietas de “perseguição”, revelou, involuntariamente, sofrer de delírio ao listar inimigos imaginários como “as Valquírias, os Vermelhos, os Vichystas”.

Foi obrigado, por falta de recursos, a morar em uma casa no campo, campo que sempre odiou, emprestada por seus advogados dinamarqueses.

Em 1950, foi condenado, em Paris, a um ano de prisão, ao estado de indignidade nacional e foi decretado que metade de seus bens, atuais e futuros, fossem confiscados pelo governo francês.

De volta a seu país de origem, tentou sustentar a si, a mulher e o filho como médico, ofício de sua formação, mas fora a mulher que conseguira, por meio de aulas de dança, garantir o sustento mínimo da família.

Louis-Ferdinan Céline morreu em 1º de julho de 1961 aos 67 anos. Falido, ignorado, humilhado. Uma indignidade nacional.

Sobre o livro

Viagem ao fim da noite trata-se de um relato semiautobiográfico. O personagem central é o anti-herói Ferdinand Bardamu que, assim como o seu autor, tem uma vida repleta de experiências marcantes, mas nem por isso agradavelmente memoráveis. Começamos a acompanhar a jornada de Bardamu na batalha que é a vida em sua modesta participação como simples soldado de infantaria em um dos maiores conflitos bélicos da história: a Primeira Guerra Mundial. Depois, seguimos com Ferdinand para a África colonial, por uma América do Norte em franca industrialização e novamente para a França onde passamos a conhecer a sua rotina de médico iniciante em um subúrbio de Paris.

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Céline, em desgraça após o triunfo dos Aliados na Segunda Guerra Mundial. Virou uma “indignidade nacional”. Crédito O Explorador.

O que achei de positivo

Esse livro é um retrato do absurdo da vida, ou, na definição de Lev Trotski sobre este romance, “panorama do absurdo da vida”.  Uma das grandes virtudes que achei da escrita de Céline em “Viagem ao fim da noite”, especialmente na primeira metade do volume, é a capacidade de passar para o leitor o quão absurda, indignante, mesquinha, sem sentido são determinadas situações em que a vida pode nos colocar, ainda mais em um período de guerra. Situações que já foram naturalizadas devido a repetição constante em que se impõem, o que explica o excruciante estado de impotência a que nos submete, mas se analisadas além da superfície, revelam falta de sentido e de justiça insofismáveis.

O estilo de sua narrativa consegue transmitir, mesmo não se valendo de um discurso direto, uma crítica direta, o tom de revolta, de pessimismo e também de conformismo frustrante. É possível visualizar o jeito de ser de Bardamu e, consequentemente, de Céline. É possível imaginá-lo trombando com você na rua. Se você tem um mínimo de vivência, já deve ter cruzado com o tipo em algum momento de sua vida: desbocado, prático, contundente, de gestos largos, por vezes inconsequentes, de uma simplicidade rústica na forma de se vestir, mas digna, e dono de inteligência que não o faz um intelectual, mas esperto, malandro, principalmente em esconder suas misérias, suas fraquezas, seus medos inconfessáveis.

E essa percepção se deve ao tom, a linguagem despojada, coloquial, agressiva, incisiva, responsável muito do impacto que causou a época e que deve gerar até hoje, a mim me surpreendeu, porque ao saber que estou lendo um romance de 1932 a minha expectativa era de um tom mais formal, mais tradicional, mas de repente me vejo com a impressão de estar lendo um livro que poderia ter saído da gráfica a 10, 20 anos atrás, sem provocar estranheza. Ou seja, tem tons modernistas, é uma obra, em termo de estilo, a frente de seu tempo e que se mantém atual.

Se você tem um mínimo de vivência, já deve ter cruzado com o tipo em algum momento de sua vida: desbocado, prático, contundente, de gestos largos, por vezes inconsequentes, de uma simplicidade rústica na forma de se vestir, mas digna, e dono de inteligência que não o faz um intelectual, mas esperto, malandro, principalmente em esconder suas misérias, suas fraquezas, seus medos inconfessáveis.

Em boa parte do livro, fiquei com a impressão de estar consumindo um livro de não ficção, mas isso não se deveu a riqueza do relato, dos detalhes de determinadas ocorrências, mas pela narrativa se semelhar muito ao estilo do gênero, se debruçando mais em relatar, explicar os porquês da concretização dos fatos e de suas consequências, do que focar em aspectos como descrição de ambientes, de aparência dos personagens, constituição física, de personalidades. Essa forma de narrar, neste caso, entendi como uma faca de dois “legumes”. Obviamente vou me ater aqui a parte positiva.

Esse livro é uma fábrica de frases de efeito. De boas frases de efeito. Daquelas de grifar, colar um postite amarelo no livro.

O livro é extenso

Verdade que li a versão de bolso da Companhia Das Letras, mas mesmo em um formato tradicional seria mais denso que qualquer coisa que o Felipe Neto já publicou ou venha a publicar. Sem dúvida é muita estória/história para contar e muitos personagens no enredo. Um estilo literário mais tradicional faria do volume muito maior do que é e provavelmente renderia trechos cansativos. Com esse estilo, Céline consegue expor os principais eventos de sua conturbada vida, fazer as observações, reflexões que julga pertinente e entregar uma narrativa fluída, envolvente, que faz o leitor percorrer páginas e páginas sem perceber. É o que sempre esperamos de um bom livro, não?

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E esse êxito de construir uma narrativa fluída se deve, como já exposto, a linguagem acessível, cativante, impactante, o estilo objetivo, incisivo, franco, mas também ao seu incrível talento de definir situações e pessoas em pouquíssimas palavras. Poucas, mas cirúrgicas, marcantes. Esse livro é uma fábrica de frases de efeito. De boas frases de efeito. Daquelas de grifar, colar um postite amarelo no livro.

Tenho que destacar a fase na África colonial

Entendo como o melhor momento de “Viagem ao fim da noite”. Onde se reúne praticamente todas as virtudes mencionadas acima. O que acho especial dessa fase é que a escrita de Louis é exitosa em passar a desolação, o clima cáustico, o retrato palpável da condição de vida dos habitantes, o contexto da época, especialmente dos moradores locais, a condição escrava, sub-humana, desalentada, sem perspectivas, primitiva, estagnada, atrasada. É o trecho em que o leitor realmente se sente viajando sem sair do lugar. É imerso em uma gostosa solidão inculpe em região erma, na mata, afastado da civilização, sem previsão de retorno, com recursos parcos, mas suficientes, com longo tempo para pensar a vida que vivera até ali e a que gostaria de viver em futuro próximo.

A saída de Bardamu da África é, no mínimo, inusitada e o seu destino, surpreendente.

É o trecho em que o leitor realmente se sente viajando sem sair do lugar.

O que achei de negativo

Agora cabe mencionar o aspecto negativo da condução extremamente objetiva, por vezes, da narração. Se é interessante para imprimir fluidez no texto e tornar viável, em termos editoriais e comerciais, a publicação de uma estória de vida tão repleta de percalços, desafios, tal característica peca, no meu entender, em promover imersão no universo retratado, em imaginar ou se imaginar vivenciando a ação narrada.

Não foi raro ficar “perdido” quanto ao lugar, ambiente, em que Bardamu estava no momento em que detalhava determinada ação, também não foi rara as vezes que tive que recorrer a todos os recursos de minha memória para lembrar a ligação, função, a ocasião em que alguns personagens surgiram na estória, de tão pobremente, brevemente, descritos, seja física ou psicologicamente, que foram no momento de introdução e também devido ao longo hiato de tempo que demoraram a reaparecer. E essa sensação de tentar lembrar e não conseguir é horrível, de se ver obrigado de caçar páginas atrás a informação de que precisa para se sentir inteiro no relato. É sem dúvida desagradável.

Eu detestei o “melhor amigo” de Ferdinand Bardamu, Robinson

Mas que cara chato, irritante, parece um encosto! Quando se pensa que ele se foi, o desgraçado volta com a mesma ladainha. Por várias e várias páginas torci para que morresse.

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Crédito: pensador.

O livro é mais extenso do que deveria

Apesar de ter um final coerente, condizente com o tom pessimista da narrativa, mas poderia ter acabado antes. O último arco do retorno de Ferdinand para França, quando entra para o instituto de pessoas com transtornos psicológicos (não se preocupe, não é spoiler, não é o que está pensando) não encontrei nada de interessante para manter vivo o interesse pela estória, nada que acrescentasse muito. O conflito amoroso é totalmente sem graça, sem sentido, estúpido até. Umas 100 páginas a menos teria deixado a estória melhor.

Por várias e várias páginas torci para que morresse.  

Agora o mais grave

Racismo.

Racismo e misoginia.

Não é algo tão evidente, não é dito com todas as letras, mas considerando o que o autor veio a se tornar anos mais tarde, os posicionamentos que veio a defender e o seu fim de vida, é cabível tal interpretação.

O modo como ele se refere, descreve, pessoas pretas, os termos que utiliza, o tom que emprega, torna perceptível uma carga de desprezo, depreciação, como se estivesse tratando de algo inferior. Confesso que nas primeiras vezes em que tive essa impressão, fiquei na dúvida, porque o contexto de determinadas situações em que são descritas, principalmente na África colonial, lhe são realmente muito desfavoráveis. Não é absurdo, e nem condenável, colher impressões totalmente negativas, porque as condições em que eram obrigados a viver, o atraso que eram forçadas a permanecer, as deixavam com aparência débil, primitiva, bárbara até. No entanto, em contexto totalmente diferente, nos EUA, quando Bardamu interage com personagem de característica física semelhante, esse mesmo ar petulante, arrogante, como se dirigisse a uma forma de vida inferior reaparece.

Ressaltando, não é algo explícito, mas perceptível. Ao menos tive essa impressão. E a biografia do autor não o ajuda.

Quanto a misoginia, acho até mais clara do que o racismo. Especialmente na segunda metade do romance. A forma como ele se refere a determinadas mulheres é de chocar. Há expressões do tipo “estupros ambulantes”. Me parece notório o conceito de mulher objeto, objeto sexual de prazer, de mero órgão reprodutor.

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Crédito: Citador.

Eu tinha anotados as frases, positivas e negativas, que colhi do livro, mas infelizmente perdi as anotações. (Valeu, Heitor, meu cachorro). Eu tenho vívido na lembrança os significados, mas não a construção exata das frases. Uma pena. Queria encher de citações a resenha e exemplificar as minhas impressões com elas, mas tenho certeza que se for se aventurar na leitura, ao menos neste ponto, de leitura repleta de frases marcantes, concordará comigo.

Considerações finais

Viagem ao fim da noite é um bom livro. Tem seus méritos, proporciona uma experiência literária interessante. Por isso, acho válida a leitura.

No entanto, sem dúvida não é uma obra perfeita, há aspectos negativos, alguns deles que compreensivelmente podem, devem, causar desconforto. Esteja ciente disso.

Sugestão de leitura

Você que curte um bom livro de mistério e suspense, indico a obra “Angústia na Cidade do Caos: crônicas de uma era indecente”, lançado pela Editora Multifoco.

Um rapaz misterioso achado desacordado e sem memória, próximo de um cemitério clandestino de uma comunidade assolada pelo sangrento conflito de facções criminosas, inicia jornada para descobrir os enigmas envoltos de seu passado. Porém, precisará encontrar respostas para questões ainda mais complicadas conforme percebe-se protagonista de eventos sinistros e inconcebíveis para o senso comum de realidade.

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Leia mais da sessão de resenhas.

 

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