RESENHA: Hollen, Anjo Caído – Fernando Raposo

 

Chacoalhando a Cartola Cultural esta semana, o que ela me presenteou foi o livro de um novo nome das letras nacionais: Hollen – Anjo caído, de Fernando Raposo.

Por séculos a rebelião mencionada na bíblia dos filhos originais do Criador liderada pelo astuto, poderoso e ciumento Lúcifer, a Estrela da Manhã, em razão da criação do Homem por parte do Todo-Poderoso é motivo para fascinar e despertar a curiosidade de gerações, pois se apresenta como uma das causas, uma das explicações sobre temas que nós, mortais, não conseguimos sondar somente com as informações que temos alcance no plano terreno: o porquê de sermos finitos, a causa do sofrimento, em quê culminará nossos atos, o que nos espera além da vida.

Tanto no cinema como na literatura, a rebelião que dividiu os céus e erigiu polos antagônicos que disputam o destino do Homem já foi retratada em diversas ocasiões e provavelmente continuará sendo por muito tempo, pois tal história/estória reúne elementos muitos atrativos, que têm apelo perante o público: um conflito que envolve questões éticas, morais, filosóficas a respeito da natureza humana, elementos fantásticos tanto no que diz respeito a aparência dos seres retratados como as capacidades extraordinárias que detêm; ação, violência, drama, terror. Ingredientes que, se bem trabalhados, rendem um uma narrativa saborosa.

Hollen, Anjo Caído
Capa de Hollen, Anjo Caído. Arte do próprio Fernando Raposo.

Para não me alongar demais, de cabeça, lembro-me do filme de Gregory Widen, Anjos Rebeldes, que me impressionou bastante na adolescência, e no Brasil o trabalho mais recente com esta temática – e exitoso editorialmente – é a saga de Eduardo Spohr, Batalha do Apocalipse.

Sobre o livro

Hollen – Anjo Caído nos traz um novo relato sobre este evento tão capital na história da humanidade, segundo os relatos bíblicos, no entanto, o foco da narrativa recai sobre uma nova figura, um anjo de posto modesto dentro da hierarquia celestial, Hollen, que foi seduzido pela lábia de Lúcifer a enfileirar as tropas rebeldes do pai da mentira na grande guerra contra as hordas celestes que permaneceram fiéis ao Criador. A Estrela da Manhã e seu exército derrotado se tornaram seres malditos aprisionados no Sheol, o submundo popularizado como inferno, condenados a viver em tormentosa agonia.

Raposo inicia a narrativa mostrando que Hollen caiu em desgraça no inferno, foi sentenciado a morte, e o método de execução seria jogá-lo em um grande abismo. Mas para a surpresa do anjo caído, no último instante, recebeu a misericórdia de Deus Todo Poderoso e ganhou uma nova chance ao ser jogado na Terra dos mortais.

Hollen, Anjo Caído 2
O livro está disponível na Amazon.

O problema é que ele não sabe o porquê foi salvo e qual a missão que o Criador reservou para ele. Para piorar a sua situação, descobre que as tropas celestes, lideradas pelo arcanjo Miguel, também desconhecem o motivo de ter recebido misericórdia e o olham com desconfiança e hostilidade, afinal, é um decaído, um traidor, e que os infernais não vão descansar até que seja cumprida a sentença determinada pelo imperador das profundezas hórridas.

Caçado por uns, indiferença de outros. É uma jornada de sobrevivência solitária cujo destino é completamente incerto, mas sem dúvida renderá momentos de tensão e batalhas intensas.

O que achei positivo

Há um aspecto na narrativa que se coaduna com uma característica que vejo irremovível da contemporaneidade: o ritmo acelerado, dinâmico, que não te permiti piscar o olho. Não sou grande fã de ritmo tão alucinante, acho que tem suas virtudes e problemas (que mencionarei abaixo), mas sei que muitas pessoas têm dificuldade de se entreter com a mídia livro por exibir, na maioria dos casos, cadência diametralmente oposta aos canais de entretenimento mais populares. Creio que o trabalho de Raposo pode ser uma porta de entrada para este perfil de leitor que sente mais dificuldade de manter o foco, a atenção em uma narrativa mais extensa e tal capacidade se daria por manter a ação do início ao fim, quase não dando espaço para respirar. Todo trabalho que tenha esse potencial de captar novos leitores, de formar novos públicos leitores merece ter sua relevância reconhecida.

Hollen, Anjo Caído 4
O autor Fernando Raposo.

E se a ação é uma das características que mais se destaca na obra, sem dúvida é importantíssimo que seja bem trabalhada, construída. Felizmente é. A maioria dos inúmeros combates travados, principalmente por Hollen contra seus diversos adversários, são muito bem descritas, com detalhes que ajudam a tornar a imersão no embate, na situação de confronto, eficiente. O autor tem talento na constituição de imagens vívidas, cinematográficas.

Das batalhas descritas, menciono o combate entre Lucian e Hollen contra o infernal Moratus, no capítulo nove. É muito bem “coreografado”, rico em detalhes, o que evita que a ação fique monótona.

Achei positiva a estrutura do enredo, da narração. Não segue ordem cronológica tradicional, há duas linhas de tempo. Uma conta os eventos presentes e outra se dedicar a narrar ocorrências passadas que ajudam na compreensão de determinados eventos ocorridos na outra linha temporal. Considerei a escolha por esse tipo de estrutura narrativa bem acertada por ser exitosa em conquistar a atenção do leitor, ao menos, no meu caso, no começo do volume, pois desperta curiosidade, intriga, estranhamento sobre as causas, os mistérios envolvendo a situação vivida pelo protagonista.

Hollen, Anjo Caído 3
A proficuidade de Fernando Raposo. Acesse as redes sociais do autor para saber mais de seus livros.

Optar por uma estrutura não convencional é sempre um desafio para conseguir manter a coesão do texto, não deixa de ser uma espécie de quebra cabeça, o que sem dúvida gera mais trabalho. O resultado final, nesse aspecto, é bem sucedido.

Destaco também o conhecimento, o bom trabalho de pesquisa sobre a mitologia bíblica. O autor utiliza termos, nomes bem específicos que somente os que têm leitura um pouco mais aprofundada sobre assuntos bíblicos detêm, que não são tão difundidos na cultura católico-evangélica nos dias hodiernos.

Identifiquei originalidade em alguns ambientes de caráter fantástico bem próprio do universo angélico-demoníaco retratado, como a árvore de mulheres reprodutoras.

Caçado por uns, indiferença de outros. É uma jornada de sobrevivência solitária cujo destino é completamente incerto, mas sem dúvida renderá momentos de tensão e batalhas intensas.

O mesmo quanto a alguns conceitos incorporados a mitologia que tentam esclarecer alguns pontos nebulosos que o próprio texto bíblico deixou de fornecer respostas claras. Em Hollen, Anjo Caído, somos apresentados a uma linha de raciocínio interessante sobre como os decaídos, demônios se alimentam, já que estão longe do paraíso e não podem ter acesso direto ao mundo dos mortais, e porque necessitam tanto, além do ódio pela criação última do Criador, corromper a humanidade.

E já que estamos no inferno, aproveito para comentar que considerei como favorável a estória o estabelecimento de conflitos dentro do próprio Sheol, as intrigas, conspirações, ardis etc. Pois é comum em enredos com esta temática estabelecer maniqueísmos rasos. Todo mundo, de ambos os lados, unidos ferrenhamente em prol de um objetivo comum, sem atritos internos, sem desconfianças, sem dúvidas; todos os problemas identificados no lado contrário. Creio ser mais lógico que em um ambiente que reúne os piores seres da criação existir muitos conflitos, discórdia, brutalidade, em suma, o caos em todos os sentidos, e que isso comprometa a elaboração de planos eficientes para derrotar os adversários. É o que se testemunha em Hollen – Anjo Caído.

Jogo luz também a o que avalio como uma competente pesquisa sobre determinados eventos e épocas históricas em que o enredo abarca, especialmente aos relacionados a idade média.

Mas para a surpresa do anjo caído, no último instante, recebeu a misericórdia de Deus Todo Poderoso e ganhou uma nova chance ao ser jogado na Terra dos mortais.

A personagem Annika, a sua jornada, arco, julgo além de ser o capítulo em que Raposo demonstra mais habilidade de escrita para estabelecer imagens se utilizando de períodos curtos, termos precisos por serem evocativos quanto aos elementos principais a se destacar, o que entendo sempre ser uma realização difícil, é o que consegue o melhor desenvolvimento de personagem. A estória de Annika, aliás, é a melhor do livro, a mais original.

A capa é belíssima. O que não surpreende ao saber que Fernando Raposo é ilustrador com experiência no mercado publicitário e editorial.  Um excelente trabalho.

O que achei negativo

Como dito acima, a dinâmica frenética tem suas virtudes e problemas. A parte negativa, a meu ver, é que a transição de eventos é muita rápida e brusca demais, mal dando tempo para o leitor se acostumar com o ambiente em que está o protagonista, se sentir imerso na atmosfera. De uma linha para outra, não em todas, mas em várias ocasiões, termina-se um conflito e inicia-se nova ameaça a ser enfrentada. Esse encadeamento de batalhas quase sem intervalo tem o efeito de, mesmo muitas delas sendo bem descritas e apresentando novos elementos, deixá-las monótonas com o avançar do livro, sem personalidade, pois são tão constantes que meio que “anestesiam” o leitor, provocam uma overdose que, se em outra circunstância poderiam ser muito estimulantes, passam a ser vistas como banais. Somente as mais inventivas se fixam na lembrança, o que é pouco considerando os diversos momentos de ação existentes no livro.

Creio que o trabalho de Raposo pode ser uma porta de entrada para novos leitores.

Faltam desenvolvimentos dramáticos para que algumas decisões, o mover de peças do roteiro, sejam mais marcantes, que façam ser perceptível o real peso que essas decisões têm; que impacte o leitor de forma a surpreendê-lo positivamente ao invés de propiciar questionamento do estilo: “Mas fulano resolveu fazer isso, assim, de repente?”.

Esse foco, as vezes, por demais excessivo na ação, gera dificuldade para se conectar com Hollen e com o universo que habita. Conheci a estória do anjo caído, seus atos e o que busca, mas mesmo assim não é possível dizer que conheço o personagem, sua personalidade. Não consegui enxergar seu interior, sentir de fato o seu drama, se importar realmente com ele e com a maioria dos personagens, porque se dedicou poucas páginas, na minha opinião, para a construção mais densa desses personagens.

Páginas que se restringem-se as primeiras camadas. Por exemplo: Lúcifer ou outro infernal tem ódio dos celestes e dos Homens, por isso, ambiciona a destruição e dominação de ambos. Essa é a superfície, a primeira camada, contudo, ainda mais se tratando de um livro, é suficiente para entendermos plenamente os personagens, em comprar a motivação deles, a causa que defendem, em mergulhar no interior destes ou de qualquer outra figura do enredo, em até se identificar em alguns aspectos, em reconhecer-se em alguém e percebê-lo como algo maior do que um nome escrito em um papel ou em uma tela? No meu ponto de vista, para que essa percepção, identificação ocorra é necessário percorrer, perfurar, singrar mais camadas.

A maioria dos inúmeros combates travados, principalmente por Hollen contra seus diversos adversários, são muito bem descritas.

Os caminhos das narrativas exitosas nesse campo, de acordo com as minhas experiências literárias, têm em comum a elaboração de origens ou diálogos que revelem algum trauma, uma inspiração, influência, um distúrbio psíquico, enfim, revelam algo que aprofundam mais as motivações de suas crias, que estabeleça um elo a mais com a nossa realidade, que colabora em promover a conexão, empatia entre leitor e persona imaginária retratada. Por mais inumano que seja os tipos de uma ficção, eles precisam conter algo de humano para dialogar com o leitor, para gerar identificação, para você se importar em algum grau com eles.

Veja: não é o caso dos personagens de Hollen – Anjo Caído não terem conduta ou sentimentos terrenos, mesmo sendo entidades divinais, essas características são apontadas, mas ao limitar o leitor na quase totalidade das páginas a acompanhar o mau fazendo o mau, o bem fazendo o bem, o traidor fazendo trairagem, cada um executando seu “ofício”, a sua função sem se aprofundar mais detalhadamente o interior de personagens chaves, torna a leitura insípida, rasa, mecanizada.

A impassividade com que os personagens recebem ou se veem diante de acontecimentos dignos de apreensão, fúria, alegria etc, passa a sensação de robotização. Faltam reações orgânicas. Há o relato de que fulano ficou triste, alegre ou furioso, mas cabe ao leitor a tarefa de imaginar essas reações na maioria das vezes, pois a narração não se atém a esses detalhes de expressões faciais, da escalada interna dos sentimentos que acometem as figuras do enredo. São detalhes que para uns e outros podem não fazer grande diferença, mas para efeito de imersão, julgo importante.

Optar por uma estrutura não convencional é sempre um desafio para conseguir manter a coesão do texto, não deixa de ser uma espécie de quebra cabeça, o que sem dúvida gera mais trabalho. O resultado final, nesse aspecto, é bem sucedido.

Achei prejudicial a falta de descrição física e de vestuário, de maneira mais detalhada e recorrente ao longo da narrativa, principalmente na primeira metade do livro. É compreensível a supressão desses pormenores no começo do relato para que a leitura seja mais fluída e desperte a curiosidade, a atenção do leitor. Porém, esse recurso é válido para convencer o cidadão de que decidiu dedicar parte de seu tempo em um trabalho literário de que vale a pena investir na estória quando chegar o momento em que será necessário gastar linhas, talvez páginas, mesmo que diluídas, para detalhar a estrutura física dos personagens e o mundo que habitam, pois sem isso, dificulta a imersão no universo desenvolvido, dificulta se sentir na pele do protagonista, por exemplo, dificulta construir e associar um universo distinto, rico, a marca que se publica.

Esse problema, conforme minha avaliação, é mais acentuado com personagens icônicos, como Lúcifer, o Diabo. Figura com associações tão fortes, universalmente conhecida e temida por seu poder e desígnios, não recebe, tanto sua aparência como o mundo horrível que reside, detalhamento mais esmerado. O que se espera, penso, nesse caso específico é se deparar com uma majestade assombrosa, algum tipo de suntuosidade macabra, detalhes terrificantes. Que existem, mas são pontuais, o advento do personagem foi como a introdução de um personagem qualquer. Mesmo entendendo que a proposta da estória não é o terror, mas a aventura, o suspense e que a versão demoníaca optada segue o caminho de destacar mais a astúcia, a ardilosidade do tipo ao invés de uma aparência medonha, mesmo assim não faria mal, não fugiria do propósito, investir um pouco mais no horror.

Onde encontrar o livro

Hollen – Anjo Caído está disponível na Amazon e você pode também conferir mais detalhes a respeito da obra no Skoob e no blog do autor.

Fernando Raposo lançou há pouco um conto bem interessante no Wattpad, “O Sobrado”.

Gostou do conteúdo?  Curta, deixe sua opinião, sua participação é muito importante para o Cartola Cultural.

Até a próxima.

Sugestão de leitura

mockup-e-book-seu-livro-e-um-bom-presente
Acesse aqui!

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s