Como o poder público poderia contribuir mais com o mercado editorial?

Acho que a essa altura do campeonato não é surpresa para ninguém de que o Brasil é o país das contradições. Aqui, juiz beneficia o vencedor das eleições ao botar na cadeia o adversário político deste e, depois, vira ministro do governo empossado. Aqui, árbitro de vídeo levanta mais suspeitas sobre a lisura do campeonato em disputa do que erradica as dúvidas. Aqui, informação descentralizada em vez de revelar o caminho da luz, reforça o obscurantismo.

Quer saber da contradição que o jogará ao assunto central deste artigo? Lá vai:

O Brasil investe, anualmente, 6% de seu Produto Interno Bruto (PIB) em educação, superando, em tal investimento, nossos vizinhos argentinos (5,3%),chilenos (4,8%), colombianos (4,7%), mexicanos (5,3%) e da ululante potência mundial,EUA (5,4%). Outro dado com potencial para iludir um iniciado no “país que não é para principiantes”: o governo brasileiro é responsável por metade das vendas do mercado editorial nacional, a grosso modo, com a compra de livros didáticos.

Junte ao quadro, o fato histórico de que as editoras recebem pilhas e pilhas de originais todos os meses por jovens, ou não, esperançosos em terem sua escrita consumida em larga escala e poderem viver do que mais amam fazer, tanto que, visitando os sites das editoras tradicionais, é fácil encontrar avisos de que não estão recebendo materiais inéditos no momento ou um informe sobre o período específico do ano para recepção de trabalhos originais; acrescente também o fenômeno que despontou nos últimos anos das autopublicações, escritores e editoras independentes que pegaram carona com a popularização dos e-books em razão da massificação das ferramentas digitais.

Plataformas como Wattpad recebem diariamente milhões de usuários interessados em acompanhar a publicação de livros gratuitos em forma de capítulos seriados escritos por outros milhões com energia, imaginação e fé de um lugar ao sol. A Amazon conta com acervo igualmente pujante de trabalhos independentes e vende como nunca.

Ou seja, o formato livro, a mídia livro, tem mercado no Brasil, continua a ter apelo, aderência em todos os públicos, faixas etárias, não foi decapitada com a ascensão das novas tecnologias. Foi absorvida, adaptada. Sinal inconteste de seus atrativos.

Cenário que faz com que não seja desarrazoado supor que o segmento, se não conseguiu se manter imune a crise financeira, ao menos resistiu bem, reformulando, resiste bem a tempestade em andamento.

Ledo engano:

A FNAC quebrou. A Saraiva encolheu. O mercado como um todo, consequentemente, caiu. Vem caindo, há pelo menos 4 anos. Após o trágico ano de 2015, o encolhimento foi de mais de 20%.

O que explica, além da crise, queda tão vertiginosa e constante? Porque se investimos mais em educação do que os 36 países membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é natural pensar que aumentou-se a conscientização sobre a importância da leitura, de como é um importante instrumento de emancipação, de desenvolvimento pessoal, de ferramenta mais do que nunca necessária para se buscar novos horizontes e, assim, escapar das agruras da erosão econômica inclemente. Porque se somos um país que lota saletas de editoras com originais fresquinhos e igualmente congestionamos plataformas de autopublicação gratuita é natural intuir que gostamos de alimentar tal efervescência criativa por meio do consumo de trabalhos intelectuais que alimentam o espírito e exercitam nossas faculdades mentais.

Há alguns fatores que explica essa aparente contradição aos iniciados na terra que correntes de Whatsapp levam mais crédito do que professores veteranos de história.

 Quarenta e quatro por cento da população brasileira é constituída de não leitores, isto é, durante um ano inteirinho não relaram a mão em um livro sequer. Isso significa que o investimento em educação falha em um elemento crucial para o desenvolvimento e estabilização de um mercado editorial saudável: a construção de uma cultura de leitura durante e principalmente depois dos anos escolares. Em outras palavras, o dinheiro é mal gasto.

As políticas públicas atuais se concentram em números, em volume, não em engajamento, no esforço de estreitar laços entre alunos e literatura. Pior: não estabelece um planejamento que promova eficientemente a renovação, a ascensão, popularização de novos trabalhos, novos escritores, ação de suma importância para estabelecer vínculos mais sólidos, contundentes, instantâneos, com as novas gerações, por fazer terem contato com temáticas, ambientações, conflitos que lhe são familiares, próximas, íntimas, o que facilita a conexão, a empatia.

Pode-se argumentar que há diversos concursos literários bancados por órgãos públicos ou os tradicionais do SESC e correlatos, mas são insuficientes para sustentar uma indústria e há a questão da pluralidade.

É um equívoco imbuir de valor somente as obras “cabeças” ou socialmente engajadas. Ficções escapistas ou fúteis têm a sua contribuição ao mercado na medida em que conseguem atrair e reter novos leitores. Sendo necessárias, é melhor que se aponte as melhores opções do que simplesmente permitir que departamentos de marketing determinem o que é ou não relevante neste meio.

Claro que nem tudo pode ser depositado nas costas da máquina pública. As editoras têm parcela de culpa, têm pecados que vivem a pagar.

Os filtros que adotam para seleção de novos trabalhos geram uma bolha, um clubinho fechado que pouco contribui a inovação, a captação do “zeitgeist”, espírito do tempo. Para não se darem o trabalho de ler as milhares de páginas enviadas por aspirantes a escritores, dão preferência as indicações de conhecidos, escritores, agentes literários etc. Como sair do lugar comum, como ser plural dessa forma? Como pensar “fora da caixinha”?

A lógica deveria ser muito parecida com os departamentos de base, formação de atletas, do futebol. Gasta-se tempo, dinheiro, energia cultivando, monitoramento, lapidando jovens atletas até que se descobre uma excepcionalidade que rende muitos frutos, compensando o investimento perdido dos outros que não vingarem.

Não é de admirar que quase toda a massa cinzenta ignorada tenha escoado para o circuito independente tão logo os recursos necessários para a autopublicação se tornaram acessíveis. Se a bolha não expande, que se esvazie na solidão.

A erupção virulenta dos independentes sob demanda ou de e-books teve como efeito nas editoras mastodontes a indução de outro filtro errôneo. Se a curto prazo se mostra lucrativo, é um tiro no pé pensando-se em uma indústria autossustentável.

O novo critério pinçado diante da nova realidade é o de selecionar trabalhos com ótimo desempenho nas mídias sociais, que renderam milhares de seguidores, curtidas e compartilhamentos aos autores.

O problema dessas plataformas, redes sociais de leitores como o Wattpad, já diagnosticado por usuários mais perspicazes, é o de se priorizar quantidade e não qualidade, de formar pequenas bolhas. Naturalmente o público mais jovem é o primeiro a ser impactado com qualquer novidade que surja na rede, por estarem mais familiarizado com o mundo digital, por serem mais ávidos por boas novas que lhes tirem dos momentos de tédio que as vezes a vida em modo de espera pelos dias turbulentos de obrigações financeiras proporciona, por gastarem mais horas de suas vidas interagindo com bits e bytes.

Normalmente, os gêneros atrativos são os que mais facilmente executam malabarismos com os hormônios de tal público. E uma vez que uma obra deste teor se destaca outras do mesmo tipo são sugeridas como opções de leitura, estabelecendo um círculo vicioso, incentivando a produção de apenas um tipo de texto por apresentar melhores resultados em termos de alcance e visibilidade e afastando outros públicos. Como a qualidade não é um requisito indispensável por leitores iniciantes em um país com índice baixo de leitura, ocorre que muitas dessas obras obtêm efeitos sazonais, mas logo são desidratadas após exame minucioso da crítica, o que compromete a captação de novos leitores, e o amadurecimento intelectual de parcela da base de fãs inicialmente conquistada que começa a perceber problemas que antes passavam despercebidos.

Acresce que nem todo bom escritor é um expert em marketing, é expansivo ou audacioso. Muitos se tornam escritores porque a escrita é um único meio pelo qual conseguem se expressar de modo mais eficaz. Muitos são inseguros, preferem tentar primeiro receber a validação de uma autoridade no assunto antes de correr o risco de uma eventual reprovação popular. Há jazidas valiosas de brilhantismo submersas em silêncio a espera de escavadores dispostos a encontrá-las. Mas os métodos atuais das editoras se restringem aos respingos na superfície.

Mas a implementação de uma política certeira de apenas um dos polos abordados, esfera pública e editoras, será insuficiente sem o auxílio, a complementaridade, a mobilização da outra parte para a construção de uma cultura de leitura, de promoção de novos ciclos de escritores e leitores.

Creio que a tarefa mais complicada está do lado do poder público e por isso lanço uma proposta, uma ideia de fomento a cultura, a educação, ao mercado editorial brasileiro que pode ser promovida pelos representantes do povo, estando ciente de que a medida por si só não bastará para resolver a questão, pois necessita de um projeto mais abrangente, um modelo educacional reformulado e bem planejado, mas creio que acrescentará algo, trará algum benefício, talvez possa ser um passo inicial rumo ao objetivo maior.

A proposta

Tornar os sites dos poderes municipais, estaduais e federais, que atualmente são acessados apenas por jornalistas e por cidadãos com problemas específicos, chamarizes de editoras e leitores interessados por novidades no campo literário. Imediatamente se lembrará das centenas de blogs sobre literatura existentes, mas com o detalhamento da proposta será perceptível diferenças importantes.

Ficaria a cargo do executivo a contratação de ao menos dois profissionais (número que será explicado adiante) qualificados, isto é, com formação, especializações, mestrados etc, específica no segmento para receber, avaliar e publicar a respeito de obras de escritores independentes e de pequenas e médias editoras.

A única exigência seria o envio do trabalho, seja físico ou digital, a um endereço determinado.

No entanto, a avaliação deverá romper a estrutura sinopse seguida de comentários insípidos, rasos e até constrangedores de tão triviais que impera em boa parte da blogosfera. Seria preciso uma avaliação de verdade, honesta, profunda, atenta, sem medo de ferir, ainda que brandamente, para que se possa vislumbrar de fato potenciais notáveis dignos de investimento, seja por parte de editoras, ou de leitores.

Porém, não é preciso grande esforço para deduzir que uma crítica negativa em um possível local de referência em um ambiente com tão poucos incentivos e tão disputado praticamente decretaria o fim das possibilidades literárias de longo alcance de autor ou da obra. Por esse motivo, vejo a necessidade de ao menos dois profissionais para se dedicar na exploração da literatura subterrânea brasileira, não só para evitar morosidade excessiva de publicação de trabalhos devido a provável sobrecarga de material a ser receber, mas diminuir o risco de se cometer injustiças, já que permitir que apenas uma opinião possa ser determinante para se definir o que é ou não apreciável incorre em presunção.

Digamos que um livro seja considerado abaixo da crítica pelo avaliador profissional, para evitar uma possível injustiça pelo motivado mencionado o volume seria repassado ao colega de ofício,mesmo que isto signifique transferi-lo ao fim da fila de recebíveis do montante que lhe foi encarregado. O segundo, confirmando a impressão do primeiro,consciente do contexto amplamente adverso ao autor independente, não publicaria a resenha, mas a enviaria ao escritor – e somente a ele – esperando que suas ponderações construtivas possam ser úteis ao seu aprimoramento.

Portanto, esse modus operandis tornaria público avaliações de trabalhos no mínimo medianos, ou assim considerados, conferindo as páginas dos órgãos públicos o status de locais de boas novidades literárias.

Além de resenhas, caberia aos profissionais a divulgação de eventos do circuito independente e entrevistas com os autores de avaliações publicáveis.

Os benefícios

O tráfego orgânico das paginas de governos ou prefeituras normalmente ignoradas pelo grosso da população aumentaria, mesmo que modestamente, mas seria um avanço em tentar aproximar o público de pautas importantes eventualmente expostas nos domínios eletrônicos, em despertar espírito de cidadania.

Além de canais de divulgação respeitáveis, a iniciativa também teria como efeito ser uma espécie de centro de ensino, oferecendo um serviço especializado gratuito, o de leitura crítica, por exemplo.

Outra contribuição importante seria o aquecimento do mercado de trabalho de profissionais do campo das humanas.

Os profissionais avaliadores contratados também poderiam atuar como intermediadores entre editoras, autores e agentes literários ao manterem um canal de comunicação livre para indicar possibilidades compatíveis aos objetivos das instituições e carreiristas do meio que eventualmente os procurassem para sondar o terreno da cena underground.  Contar com o trabalho de profissionais competentes pagos para se dedicar integralmente na análise de obras fora do grande circuito comercial, sem indicações, sem estatísticas enganosas, obedecendo simplesmente a ordem de chegada, seria a abertura de um novo tipo de filtro, porém, julgo, mais justo, plural e com mais possibilidades de descoberta de valiosas raridades.

Os livros físicos recebidos e lidos poderiam ser distribuídos, trocados ou vendidos a preços populares em eventos anuais em escolas, parques, periferias, saraus literários, enfim, onde fosse mais conveniente.

Creio que tal iniciativa possa ser um estímulo adequado e possível por parte do poder público para promover o fortalecimento, a renovação do mercado editorial brasileiro assim como ser um início, modesto, porém melhor que a imobilidade, a apatia, para a construção de uma cultura sólida de boa leitura.

Sem dúvida é pertinente a questão sobre de onde se obteria recursos para bancar tal iniciativa. Pondero, antes, que não seria necessário de começo que a ideia contasse com a adesão maciça de todas as instâncias administrativas e nem a contratação de um contingente robusto de profissionais. É notório que cada cidade e estado conta com orçamentos e necessidades distintas. Porém uma experiência, uma sementinha, já seria válida, até para se fazer testes, aprumar detalhes, acertar logística, cronograma etc.

Não cheguei a fazer um estudo aprofundado sobre finanças, orçamentos disponíveis e aprovados para os anos seguintes, porque o propósito é de trazer a luz uma ideia para ser estudada, aprimorada, testada, enfim, mas, em uma rápida apreciação a respeito, uma medida com potencial de solucionar o problema da questão financeira em muitas cidades, por exemplo, seria recorrer as práticas de um grupo que ficou mundialmente famoso nos anos 80.

O de caçar fantasmas.

No caso, funcionários fantasmas.  Mas é apenas uma possibilidade entre diversas que devem existir.

Sugestão de leitura

Você que curte um bom livro de mistério e suspense, indico a obra “Angústia na Cidade do Caos: crônicas de uma era indecente”, lançado pela Editora Multifoco.

Um rapaz misterioso achado desacordado e sem memória, próximo de um cemitério clandestino de uma comunidade assolada pelo sangrento conflito de facções criminosas, inicia jornada para descobrir os enigmas envoltos de seu passado. Porém, precisará encontrar respostas para questões ainda mais complicadas conforme percebe-se protagonista de eventos sinistros e inconcebíveis para o senso comum de realidade.

Saiba mais a respeito aqui.

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