4 erros comuns que tiram o leitor da imersão de um livro

Neste post que inaugura o início de trabalhos do Cartola Cultural 2019 irei tratar dos erros mais comuns que vejo um escritor cometer que culminam no leitor deixando de “comprar” a estória que o autor tanto trabalho teve para arquitetar, que o retiram da imersão do livro, da plausibilidade exitosa do universo inicialmente retratado, o fazendo chegar a conclusão de que o autor “perdeu a mão”, “escorregou” deixou escapar “furos de roteiro”.

Realmente não é uma situação agradável tanto para quem escreve quanto para quem lê ou assiste, pois a sensação é de pura decepção, se deparar com algo de potencial animador se esfarelar ante a ruína de decisões equivocadas ou deslizes de momento.

Lógico que algumas questões são subjetivas, o que funciona para uns não funcionam para outros e nem sempre é possível estar a par de todas as possibilidades, seja pela dimensão da estória, prazos curtos, acúmulos de trabalhos ou pelas constantes transformações que a nossa sociedade passa na era do mundo digital tornando o que hoje é novidade em algo ultrapassado, obsoleto em questão de meses, considerando que um livro pode demorar anos para ficar pronto, muita coisa pode não fazer mais sentido na época de sua publicação.

4 erros comuns que tiram o leitor da imersão de um livro
Veja os erros mais comuns que tiram o leitor da imersão de um livro.

Mas na experiência de leitor de uma porrada de livros de variados tipos e depois como autor, aprendi que algumas situações que influenciam os leitores a saírem do “mundinho” que se inseriram voluntariamente são evitáveis, mesmo com todos esses poréns.

Listo essas situações a seguir.

Confira!

Diálogos

Eu gosto de trabalhar com diálogos, para mim é o momento que os personagens ganham “vida” de fato na cabeça do leitor, quando estes os imaginam com uma voz própria, interagindo, gesticulando, se expressando. É o momento só dele e que o faz ser memorável, ganhar camadas que o tornam mais nítido e não uma figura esfumaçada, distorcida, debilmente pincelada em meio a uma narração caudalosa. Alguns encaram os momentos dos diálogos como um ator que recebe um papel para interpretar. Mais imerso do que isso impossível, não é mesmo?

Mas isso tudo vai por água abaixo se os diálogos não tiverem conexão com a realidade, ou ao menos com a realidade em que os personagens estão situados.

O exemplo que sempre utilizo para ilustrar esse problema é um romance nacional que li anos atrás, infelizmente não lembro o nome do autor e do livro (minha decepção foi tão grande que resolvi apagá-los da minha mente), o que me lembro, pois foi o que mais me chamou atenção, confesso, foi a capa, uma sombra projetada em um chão de paralelepípedo reluzente por causa da umidade da chuva e da iluminação do poste em meio as trevas resolutas, como adoro imagens preto em branco com esse jogo de luzes, achei fantástico.

Pois bem, esse romance, era um romance policial e tinha o grave defeito, ao meu ver, dos diálogos estarem seguindo uma lógica de texto, de produção textual, de linguagem textual em vez de se basear na linguagem oral, no modo como as pessoas falam (o enredo se ambientava no século XX, na era moderna), ou seja, com coloquialismos, gírias, palavrões etc. O resultado eram personagens bem construídos se valendo de uma linguagem que uma pessoa com mínimo de vivência sabe que ninguém fala de tal modo, soando muitas vezes como algo infantil, descolado da realidade, boboca.

Um exemplo prático:

Lembro que havia um trecho em que um cidadão aleatório qualquer identificou um cadáver, um cara baleado dentro de um carro no estacionamento. Naturalmente ficou estarrecido com a cena e procurou alertar os responsáveis do local.

Chegando até o porteiro, ele explica que acha que viu uma pessoa morta dentro do carro, porque ela não se mexia e estava com a camisa “empapada” de sangue.

Empapada?

Quem, em uma situação dessas, no Brasil, final do século XX, fala “empapada”?

Isso me tirou completamente dentro do suspense. Minha reação foi de riso misturado a indignação.

O que seria mais plausível:

– Mermão (pode variar conforme a classe social e a região) Acho que tem um presunto dentro do carro no estacionamento. Está todo fudido, cheio de sangue, não se mexe.

Velho, se for trabalhar com diálogos, observe o seu povo, analise o tipo que está retratando, identifique a sua linguagem, senão o resultado será diálogos completamente destoantes do que é considerado crível, o que sem dúvida afetará a sua missão de engajar o leitor no seu enredo.

Inconsistência interna

Sabe aquela estória de que o ponto A não ligou ao ponto B? Puta, cara, isso é terrível. Isso demonstra que sua vontade de escrever foi maior do que a necessidade de pensar sobre o que iria escrever. É difícil as vezes conter esse desejo. Mas acho que mais importante é conter sua vontade de publicar. Pois uma hora essa vontade de escrever vai passar e seu lado racional passará a se fazer mais presente. Mesmo que tenha começado a inscrever por impulso, e isso acontece nas melhores famílias e nem pode se dizer que é errado (que o diga Pirandello), no entanto, o importante é que, em algum processo da etapa de criação, você dê espaço para a reflexão, para a análise de todas as informações que colocou na tela e verificar se fazem sentido, se constroem um, se você consegue manejar os dados de modo a se construir um sentido satisfatório.

Gastar um tempo na reflexão sobre os rumos do enredo ou sobre o que pretende escrever é fundamental para o ato de escrita. Não cheguei a tal extremo, mas se for preciso, gastarei mais horas pensando sobre o que escrever ou pera que conclusão quero chegar do que no trabalho braçal de escrita e revisão. Porque imagine você gastar horas de sua vida, perder fins de semana, alimentar expectativas mil, para descobrir que o seu trabalho apresenta graves inconsistências internas, é falto de coesão textual, de que as ações de determinados personagens não fazem jus aos dados anteriormente expostos ou de sua estória não tem absolutamente nada de original? Frustrante pra c@%$!

Não, cara, trabalha nesse enredo aí. Esses erros podem demonstrar ao leitor imaturidade, ingenuidade, ou desleixo, falta de seriedade com o próprio trabalho e o primeiro ímpeto do cidadão é abandonar a leitura por achar que está perdendo tempo com um cara que não gastou o tempo necessário para fazer o bê-a-bá, enquanto há uma infinidade de outros autores, vivos ou mortos, com incontestável prestígio na praça.

Gramática e ortografia

Isso é outro batom na cueca que faz o leitor torcer o nariz. Ok, um errinho vadio esporadicamente separados por parágrafos de distância não vai incomodar tanto, até porque sempre passa alguma coisa, ainda mais se for apenas você, autor, que vai fazer a revisão, o que não é recomendável, o seu envolvimento com o seu trabalho e a ansiedade por terminar o trabalho sem encontrar nada que vá fazer quebrar mais um pouco a cabeça sempre colabora para que deixe passar detalhes bobos, que um outro cara sem ter a menor noção sobre o que trata o texto consegue identificar de primeira ao ler o texto.

Mas erros constantes e escabrosos queimam muito o seu filme com o público, que instantaneamente é ejetado da imersão da leitura ao sentir o ritmo da leitura prejudicado por quebras do acordo ortográfico ou se surpreender com um erro crasso  tão destoante do que vinha acompanhando até o momento do flagra. É como você ouvir uma música que te embala em um ritmo agradável e, de repente, ouve uma desafinada brusca completamente fora do tom da harmonia que se difundia.

Essa é a lição: narrativa é como música, todas as palavras devem estar bem afinadas para envolver o leitor em deleitosa harmonia. Algumas escorregadas são perdoáveis, desde que não sejam constantes ou medonhas. Imagine que está jogando uma partida de Guitar Hero.

Clichês

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O que é pior? Inconsistência interna ou clichê? Difícil, os dois são horríveis! Enquanto um peca pela falta de coerência o outro investe para conduzir o leitor a um enredo que ele já viu. É como convencê-lo a pagar de novo por algo que ele já consumiu, mas com personagens e cenário diferentes. Mas que sacanagem.

O clichê são aquelas soluções manjadas, que um dia já foram consideradas novidades, mas de tanto ser recorridas, usadas, acabam se desgastando, se tornando previsíveis, óbvias.

Se estruturar uma estória de modo que a solução seja uma dessas soluções desgastadas, abundantemente usada ao longo dos tempos, corre o risco do fulano ou fulana que te ler descobrir ainda na metade do livro qual vai ser o desfecho e certamente ficará frustrado, pois o elemento que em tese garantiria o fator surpresa, a tensão, terá sido desfeito. Leitores querem sempre ser surpreendidos. Querem sempre novidades, já que, como consomem bastante conteúdo por ser cada vez mais acessível, estão por dentro de praticamente todas as fórmulas, todos os truques narrativos, estão cada vez mais exigentes.

Claro que nem sempre é possível se desviar de algumas pedras cantadas, mas o importante é que tente se desviar ao máximo, nos momentos chaves, nas ações mais relevantes, dos trajetos mais conhecidos.

Contudo, é importante encontrar um equilíbrio. Nem sempre uma solução diferente será a melhor, principalmente se ela não fizer o menor sentido com o jeito de ser do personagem ou direcionar a estória para caminho falto de qualquer tipo de atrativo. As vezes, não tem jeito, terá que dá o braço a torcer para o clichê em prol da coesão textual e por possibilidades futuras mais atraentes.

E como identificar o clichê? Isso não tem muito segredo. Não existe um manual que enumere todos os clichês existentes, até porque alguns podem surgir sem nos darmos conta, quando algo oficialmente vira clichê? O único caminho para desviar da maioria deles ou ter ciência de boa parte é consumir bastante conteúdo. Ler. Ler muito, coisas antigas, coisas atuais, só assim adquirirá um repertório onde poderá identificar quais situações ocorrem com mais frequência do que outras e que já demonstram não causar impacto positivo no público ou em você. Seu gosto nunca pode ser tirado da equação na hora da construção do livro.

Uma dica? A melhor forma para identificar o que já não funciona mais em termos narrativos ou que já perdeu muita de sua popularidade é ver ou ler algumas porcarias, materiais que você não gosta ou que são execrados pelo público, ou um público mais exigente, e crítica. Afinal, provavelmente, um dos motivos por tamanha rejeição é que são recheados de escolhas de mau gosto e de clichês.

Há algo de positivo até nas grandes merdas que assombram as nossas vidas, nos ajudam a reforçar nossas convicções e identificar o que definitivamente não dá resultado. É uma visão um tanto modo Pollyana de ser, o que não me é habitual, mas nesse caso, vejo sentido.

Uma amostra

Bom, cara, e encare esse “cara” sem um gênero definido, eu tentei, juro que tentei e, pelo que tem saído até agora, acho que consegui evitar esses erros clássicos que costumam tirar o leitor da imersão de um livro no trabalho que publiquei recentemente pela editora Multifoco. Uma obra ficcional de mistério e suspense com traços bem brazucas: Angústia na Cidade do Caos: crônicas de uma era indecente.

Você pode conferir mais detalhes do enredo, sinopse etc, aqui.

No livro procurei:

  • Escrever diálogos condizentes com o modo de falar e contexto social de cada personagem, não se furtando de coloquialismos, gírias, marcações de oralidade, enfim, os vícios de linguagem comum do jeito de falar dos brasileiros. Mas essa flexibilidade quanto ao bom português, ou português correto, verifica-se apenas nos diálogos. Boa parte do livro é narrado em terceira pessoa e obedecendo a norma culta;
  • Desenvolver um enredo que apresente consistência interna;
  • Submeter o texto a revisão de profissional;
  • Evitar o máximo possível clichês de modo a não prejudicar a coesão e o bom andamento da estória.

O que me faz acreditar que alcancei sucesso nesse sentido, além da minha experiência como leitor de milhares de páginas, foram as resenhas que começaram a sair a respeito do livro, todas, felizmente, até o momento, positivas.

Boa parte delas você pode conferir no Skoob.

Mas coloco algumas aqui:

Atraentemente.

Livros & Opinião.

Fantástica Ficção.

Então é isso, galera. Aqui foram as minhas dicas para evitar erros comuns que tiram o leitor da imersão de um livro e uma sugestão de leitura para quem está atrás de uma estória que atenda esses requisitos e que garanta bom suspense.

Até a próxima.

 

 

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2 comentários

  1. Nessa tarde de domingo, a partir do seu texto, resolvi fazer uma avaliação da modesta obra que lancei e está no link abaixo. Gostaria muito de saber a sua opinião.

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