RESENHA: Presentes Perigosos

Turma das letras, o que sai esse mês da Cartola Cultural é uma antologia de contos organizada pela editora Constelação em parceria com a Associação Brasileira de Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror (ABERST), “Presentes Perigosos”.

O volume reúne 23 contos de crimes ocorridos na noite de Natal. Essa proposta me atraiu porque adoro ver o “lado B” de datas e eventos tradicionais e há muito queria pegar um livro que me desse uma amostragem do que a literatura nacional contemporânea vem produzindo.

Será que o resultado foi bom?

Presentes perigosos capa
Capa da antologia natalina “Presentes perigosos”, publicado pela editora Constelação em parceria com a ABERST.

Veja a seguir.

Presentes Perigosos: avaliação

Ao contrário do que venho fazendo nas minhas últimas resenhas esta aqui contará apenas com o que achei de positivo. Isso significa que achei a antologia perfeita? Não, mas ocorre que é natural, creio, em um livro que reúne várias estórias o leitor achar alguns contos mais marcantes do que outros, que dialoguem melhor com as suas preferências e se eu for analisar um por um, o post ficará enorme. E apenas dá um resumo de cada conto não vejo sentido. Nesse caso acho que é mais interessante olhar a antologia de forma global, como um todo: a maioria dos contos chamou a minha atenção ou não? No que concerne a parte editorial, de produção, a publicação é bem feita?

Em relação a esses dois pontos, para a minha felicidade, e para a sua, ao menos aparece mais uma opção de leitura para avaliar, a resposta é afirmativa.

Começando pelos contos.

Contos de Presentes Perigosos

Não tenho a pretensão de definir de forma terminante o que é bom ou não, nem tenho formação adequada para tanto, apenas expresso a minha opinião de um cara com milhares de páginas consumidas e um livro publicado e com tantos escritores, estilos, reunidos não será difícil, uma vez lendo a antologia, se deparar com estórias que te impactem mais do que a mim. Mas se meus 2 centavos valem de alguma coisa para você, segue a minha seleção, as minhas impressões sobre os que considerei melhores.

A leitura da antologia natalina “Presentes Perigosos” se desenvolveu em uma crescente para mim. A cada estória o grau de imprevisibilidade, horror, complexidade foi aumentando e devo creditar esse trabalho de conseguir manter o interesse pelo volume aos organizadores da antologia, Cláudia Lemes, um dos principais nomes, se não o principal, da literatura nacional contemporânea de mistério e suspense, e Tito Prates, escritor que entre outros trabalhos publicou a primeira biografia de Agatha Christie escrita originalmente em português, biografia que recebeu a chancela da família da dama do crime.

O primeiro conto que destaco de Presentes Perigosos é:

8:40 – Rodrigo Ortiz Vinholo

Eu gostei deste conto porque ele consegue fazer de uma premissa inicialmente tragicômica, o suicídio do Papai Noel, nada mais simbólico para um Natal deprê, em uma situação que não carrega nas tintas para tornar a situação possível.

A estória é ambientada com os dois pés no chão, não há nada fantasioso, que exige demais de nossa suspensão de descrença, e as motivações para tal atitude são bem fundamentadas. O enredo é muito bem construído.

Quando você junta todas as peças, bate na cabeça e pensa: “Porra, Papai Noel, que merda hein?”.

Noite Feliz – Andrea Nunes

Aqui temos um conto de uma jovem delegada em uma cidade interiorana do Rio grande do Sul que se depara com um caso de ciúme doentio.

A trama é envolvente e consegue criar expectativa no leitor quanto ao clímax. O momento de tensão é bem trabalhado e o final conta com uma das melhores reviravoltas, que atualmente é conhecido com o termo gringo plot twist, da antologia.

Presente Funesto – Igor Moraes

Um delegado da capital paulista pede o auxílio de um detive que ficou famoso por explicar e desvendar ocorrências policiais em seu canal no Youtube. O caso é para descobrir o assassino de uma senhora refinada que teve o rosto desfigurado.

Achei que foi muito feliz na ambientação do conto, transmitindo clima urbano e moderno, e também por especular uma possibilidade muito plausível de um fenômeno bem próprio de nossa época: empreendedorismo, exposição via mídia social. Talvez até exista um canal do Youtube com o enfoque que Moraes colocou e eu não saiba. Mas achei bem sacado e contextualizado.

Arquivos Queimados – Vitor Abdala

Um chefe de investigação da Delegacia de Descoberta de Paradeiros da Polícia Civil Fluminense, na noite de Natal, precisa investigar um corpo queimado encontrado em um matagal no Morro da Mangueira.

O antagonista do conto não foi o mais maquiavélico, perturbador, da coletânea, claro, no meu ponto de vista, mas foi o que proporcionou o melhor embate em termos de diálogos e um dos momentos mais tensos. Foi também um dos contos mais pés no chão cujo tipo de crueldade, conflitos, certamente ocorre com frequência alarmante na nossa sociedade. E me fez lembrar um dos aspectos únicos de se ler autores contemporâneos: o de se aproveitar de eventos reais ainda frescos na lembrança do leitor e que ainda vão repercutir futuramente. Gera proximidade incomparável.

Último Presente – A. T. Sérgio

O investigador Nogueira é chamado para analisar as causas da morte de um senhor durante a ceia de Natal com suas sobrinhas.

De todos, foi o que mais me deixou imerso na atmosfera, na ambientação, devido a profusão de detalhes.

E como é bom se deparar com uma descrição bem feita nesse molde de narração caudalosa. Imagino que isso deva ser cada vez mais raro (só me vêm na cabeça, como referência, autores clássicos), porque o ritmo que vivemos e que também influencia, creio, o comportamento do leitor (e principalmente se levarmos em conta que estamos tratando de um conto), estimula a priorização da ação imediata em detrimento da construção paulatina de um clímax. O que é arriscado, não que seja “certo” ou “errado”, mas é arriscado devido a esse contexto. Por isso, acho que, em termos de proposta, foi o mais ousado.

E no meu entender foi bem sucedida, graças a habilidade notória de escrita, de condução da narrativa que trabalha basicamente com objetos inanimados e especulações.

Isso foi um aspecto que achei interessante, apesar de não ocorrer durante a investigação do caso uma ação concreta, enérgica, é um dos contos mais “enervantes” da antologia, mais tensos, pois cria uma atmosfera de calmaria e organização que parece que se mantém estável por muito pouco, que irá se romper a qualquer momento, além de sondar, aventar possibilidades terríveis.

Natal Sangrento – Viviane Sophie

Neste conto, deparamos com a busca do detive Marlon de encontrar um assassino que há pelo menos duas décadas aterroriza a pacata cidade de Oratórios, interior de Minas Gerais, sempre fazendo as suas vítimas na véspera de Natal.

Foi o assassino mais perturbador da antologia, mais especificamente o momento da revelação. É a estória que mais fez perceber-me dentro de uma realidade, um universo doentio, desesperador e desesperançoso. Ou seja, tudo o que queremos evitar normalmente. E como eu posso ter gostado? Porque escritor é uma raça maldita.

Saliva Natalina – Flávio Karras

Um jornalista que vive escrevendo para sites sensacionalistas, de meia idade e solteirão e seu amigo policial tentam obter o furo do ano ao investigar as causas que estão fazendo surgir pela cidade corpos desovados em estátuas natalinas.

Eu fiquei com vontade de ler mais estórias dessa dupla. É admirável como o autor conseguiu em um conto, em breves páginas, construir um universo cativante e personagem tão carismático. O conto flui maravilhosamente bem, é tudo muito orgânico, conectado e tudo isso regado com bom humor.

O Caçador – Jhefferson Passos

Um serial killer que por quatros anos consegue se manter anônimo apesar dos esforços de um detetive que ficou famoso por desvendar casos parecidos no passado. Com a chegada de um novo assistente, essa caçada parece que se aproxima de um desfecho, por mais macabro que seja.

Foi o final mais aterrorizante da antologia Presentes Perigosos. Considerando a proposta da antologia, não é pouca coisa. A sensação ao ter lido esse final foi a mesma, ou ao menos me lembrou muito, de quanto assistir Seven, David Fincher, pela primeira vez. Será que a capa do livro foi inspirada neste conto?

Deep Web – Vanessa Nunes

A professora da filha de um delegado do Rio de Janeiro desapareceu um pouco antes do término do ano letivo. Ele jamais conseguiu desvendar o caso. Mas tem uma teoria. Uma teoria que jamais teve coragem de contar para alguém da família.

É uma das estórias mais agoniantes, no bom sentido, do volume porque coloca o leitor na mesma condição da personagem, sem saber exatamente o que ocorre, com as mesmas dúvidas, descobrindo junto com a protagonista a sucessão de eventos.

Cada revelação apavorante impacta diretamente o leitor, porque ele está ali, na mesma maca, visualizando o que a personagem visualiza, ouvindo o que a personagem ouve, descobrindo o que a personagem descobre, se martirizando, lamentando, se contorcendo simultaneamente com a vítima.

É um conto que sabe mexer com as emoções de quem o ler, é difícil ficar indiferente. Sem contar que o mundo subterrâneo que aborda não é nenhum pouco prudente considerá-lo apenas uma mera fantasia.

Ainda destaco a versão mais horrenda do Papai Noel na qual me deparei e a camada que aborda as condições que a restrição ao aborto sujeita milhares de mulheres no país, claro, com desfechos diferentes, mas nem por isso menos trágicos.

E o que você fez? – Larissa Brasil

A investigadora Nanda Noronha e seu parceiro são chamados no plantão da véspera de Natal para investigar as causas da morte de uma prostituta no bordel da cidade. No local, se deparam com um bilhete que apresenta um enigma.

Eu gosto muito quando um autor fornece pequenos detalhes que alguns torcem o nariz, mas eu acho necessário para aproximar o leitor, fazê-lo se sentir mais na pele dos personagens, como o apontar do suor nas axilas ou o cuidado com a calça jeans frouxa na cintura, coisas desse tipo. Parece bobo, mas isso, no meu entender, traz humanidade, remete nossas lembranças a situações parecidas que vivenciamos e logo gera uma pequena, mas quando constante, profunda, conexão, ambientação, realismo.

Acho que foi a mais inventiva quanto ao enredo, criativa. Existencialismo, drama, poesia, horror, conflito, ação e investigação. E tudo na medida. A investigação desse conto foi a que mais elevou a adrenalina.

A Batalha do Celular – Clóvis Nicacio

Um detetive se enfia em uma das ruas mais movimentadas da cidade de São Paulo, na época de Natal, para encontrar um presente para a nova namorada do filho adolescente. Aparentemente, conseguem encontrar o presente perfeito por um preço bem atrativo. Mas o barato, é quase uma regra, pode custar muito caro.

Foi o conto mais estranho. Bizarro. O que é ótimo! Forneceu variedade a antologia ao desapegar do realismo.

Magia, tecnologia, lendas urbanas e um final impactante.

Muito bom.

Ceia de Reconciliação – Fabiano Soares

Flávio e Marcos vão investigar uma ceia de Natal que não acabou nada bem. Treze mortos, restando como sobreviventes apenas avó e neta. A família, assim como a sociedade brasileira nos últimos anos, estava rachada por questões políticas, mas, talvez, um pequeno descuido pode ter colocado tudo a perder.

Eu não sei por que, esse conto me lembrou do filme “Relatos Selvagens”, filme argentino que estourou anos atrás, mais especificamente o arco do casamento, por envolver relacionamentos familiares, discussões, intensidade, embora contexto e temática sejam totalmente diferentes.

Também captei uma dose tarantinesca ao fazer a inusitada combinação, em certos momentos, de violência e humor. E também uma boa reflexão quanto ao clima polarizante que reina no país.

Edição de Presentes Perigosos

É muito agradável de ler a antologia natalina Presentes Perigosos, os contos têm em média 7 páginas, o que pode ser uma ótima alternativa para quem tem dificuldades para ler, seja por questão de tempo ou por problema de concentração. Em 10, 15 minutinhos é possível ler uma estória com início, meio e fim. Se “quebrar” a leitura por um conto por dia, em menos de um mês terá lido um livro.

As páginas, amareladas, e fontes auxiliam bastante o processo de leitura, são confortáveis.

Cada conto é separado por uma folha em preto que carrega o título da próxima estória em um verso e a arte da capa em outro, o que gera efeito de transição agradável.

A capa transmite com maestria a proposta da antologia, desde as escolhas das cores e da arte, embora ache que a cor do título prejudica a leitura, no entanto entendo que uma cor mais vivaz poderia deixar o visual “animado” em demasia para uma antologia repleta de sangue.

Considerações finais

Recomendo Presentes Perigosos para os que curtem estórias de investigação policial, assassinatos, suspense, o título entrega todos esses elementos e tem uma edição muito bem produzida.

É ótimo se deparar com uma antologia de autores nacionais de boa qualidade e que em alguns casos abordam questões que são tão próximas do dia a dia do brasileiro, o que nenhum livro gringo, por melhor que seja, tem condições de fazer.

Muitos bons trabalhos têm saído da ABERST, peguei livros de alguns dos associados e espero publicar resenhas futuras aqui no blog.

A associação é recente, mas já vem participando de várias antologias e de feiras literárias. Este ano ocorre a segunda edição do Prêmio ABERST, voltada para publicações do gênero que trabalha.

Qualquer escritor, mesmo sendo independente, pode concorrer ao prêmio, desde que atendendo requisitos mínimos. Visite o site da associação para ter mais informações sobre inscrições ou para conhecer mais do trabalho que a ABERST desenvolve.

Sugestão de leitura

 

Você que curte um bom livro de mistério e suspense, indico a obra “Angústia na Cidade do Caos: crônicas de uma era indecente”, lançado pela Editora Multifoco.

Um rapaz misterioso achado desacordado e sem memória, próximo de um cemitério clandestino de uma comunidade assolada pelo sangrento conflito de facções criminosas, inicia jornada para descobrir os enigmas envoltos de seu passado. Porém, precisará encontrar respostas para questões ainda mais complicadas conforme percebe-se protagonista de eventos sinistros e inconcebíveis para o senso comum de realidade.

Saiba mais a respeito aqui.

Compre o livro aqui.

Adicione o livro na lista de desejados no Skoob.

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Até a próxima.

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