Por que havia menos escritoras no passado?

Por que haviam menos escritoras no passado?

Caros amigos da Cartola Cultural.

A pauta desse mês me veio ao terminar a leitura de “Inferno Ártico”, de Cláudia Lemes, quando me vi pensando que fazia um tempo que não lia obra de escritoras. Fiquei puxando na memória quantas eu já tinha lido ao longo da minha vida e demorou um pouco para ocupar uma das minhas mãos, mas acabou ocorrendo.

De cabeça é mais ou menos o seguinte:

Por que haviam menos escritoras no passado?
Por que haviam menos escritoras no passado? Mulheres são as que mais leem há muito tempo no Brasil.
  • Rachel de Queiroz;
  • Clarice Lispector;
  • Cecília Meireles;
  • J.K. Rowling;
  • Carolina de Jesus;
  • Toni Morrison;
  • Leila Rentroia Iannone;
  • Valéria Piassa Polizzi;
  • Agatha Christie;
  • Cláudia Lemes.

Deixei de fora os livros de não-ficção.

A constatação óbvia é que li bem menos escritoras do que escritores, não por ter alguma preferência ou resistência, minha ordem de leitura não tem critério que não seja o que me desperta vontade. Posso ler em um mês Flaubert e no outro um romance congolês da atualidade.

Creio que uma possível resposta seja o fato de haver menos referências de obras clássicas produzidas por mulheres do que por homens ao longo da história, o que vai totalmente de encontro ao panorama atual.

Mulheres no mercado editorial

Iniciei minha carreira literária há pouco, caso não saibam, lançando, ano passado, Angústia na Cidade do Caos: crônicas de uma era indecente. E para divulgar o meu trabalho comecei acompanhar alguns blogs, pesquisar, fechar parcerias, essas coisas. E percebi que a maioria dos blogs literários existentes são voltados para mulheres, e a maioria dos livros ali divulgados são escritos por mulheres e nos mais diversos formatos, físico, e-book, Wattpad etc. O mercado de romances e livros eróticos, aliás, percepção empírica, transborda.

Nessa atividade, notei que quase 100% dos leitores que interagem, comentam, opinam são de mulheres.

Fiquei curioso e fui pesquisar se essa impressão se corrobora com os números oficiais.

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Passando com essa foto de incentivo à leitura de autoras mulheres no feed de vocês! Vou deixar algumas dicas, entre nacionais e internacionais, assim não tem desculpa, tá bem? Então tá bem! • Octavia Buttler – A Dama da Ficção Científica! • Claudia Lemes – Escritora brasileira de Thrillers incríveis! • Margaret Atwood – autora de O Conto da Aia e muito mais. • Clara Savelli – romance fofos agora na @intrinseca • Anne Rice – a melhor série de vampiros já escrita. ♥️ Agora é com vocês! Indiquem autoras mulheres nos comentários. Vamos começar a semana com novas leituras na lista, bora lá!! • ig das autoras citadas @claudialemesautora @claraguta . . . #autorasnacionais #autorasbrasileiras #escritorasmulheres #livrosdemulheres #mulheresnaliteratura #octaviabutler #margaretatwood #annerice

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E sim, embora a diferença não seja tão abissal, o público feminino representa a maioria dos leitores no Brasil. E já há algum tempo. Creio que não seria absurdo apontar que nunca na história mulheres escreveram tanto e foram tão reconhecidas por esse trabalho. No período de 2007 a 2015, o número de escritoras ganhadoras do Nobel de Literatura empatou com o dos escritores.

Ou seja, é muito provável que a lista que coloquei lá em cima de autoras que li tende a aumentar bastante daqui para frente e a sua também.

O que me fez pensar sobre as causas dessa produção profícua e marcante das mulheres na literatura não ter ocorrido há mais tempo.

Por que só agora?

Claro que o machismo é sempre uma questão que persegue as mulheres desde sempre e responde parte da pergunta.

Mas não responde de todo.

Apesar da provável resistência de se ler autoras, no século XIX, por exemplo, não havia, ao menos nos grandes centros de pensamento mais desenvolvidos, proibição imposta quanto a atividade de escrita por mulheres. Tanto que foi nesse período que surgiu as primeiras jornalistas, como Nellie By, e a maioria usava pseudônimos justamente para evitar a cara feia dos mais reaças.

E também não se trata de falta de leitura, de intimidade com os livros. O dado de que o público feminino é o que mais ler no Brasil não surpreende. Ao menos não a mim. Os romances antigamente saiam em folhetins e o público que mais consumia esse conteúdo era as mulheres.

Mas demorou mais de século para que a produção literária feminina explodisse e se equiparasse em número e qualidade com a dos homens, o que, como expus, explica a falta de referências clássicas na mesma proporção que as de autoria do público masculino.

O que mudou nas últimas décadas, no último século, para que hoje possamos presenciar quadro tão diferente?

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Lendo tardiamente esse livro incrível da @jaridarraes , pois meu plano é vê-la hoje e adquirir seu novo livro, fiquei pensando no quanto ouço falar da Rupi e ouço menos sobre a Jarid. Não é uma disputa entre mulheres, pelo contrário, a gente tem que se fortalecer em nós mesmas, até porque esse fenômeno que citei tem relação sim com o fato de que o espaço não acontece pra todas, e cada pequeno feixe de luz sobre uma de nós é conquista da geral. Mas isso diz muito sobre nosso país, que consome aquilo que vem pronto, alguma grande mídia citou e já convenceu de que é tudo que existe, um país que não pesquisa suas raízes, as nega diversas vezes, é elitista, machista, sexista e racista. Há agora quem dirá: "mas quem é melhor é que fica mais conhecida" , e está aí mais um traço da ignorância de como realmente funciona essa sociedade. Nem precisaria compará-las, e nem deveria não fosse o fato de que pra minha percepção, a literatura da Jarid é infinitamente mais importante pra nossa cultura nesse momento, porque vai além de ser feminista, traz questões sociais, psicólogicas, afetivas que nos embargam, e faz isso da maneira mais sensível e necessária. Que imenso orgulho e gratidão. #jaridarraes #umburacocommeunome #leiamulheres #lendomulheresnegras #lendomulheres #lermaismulheres #autorasbrasileiras #mulheresbrasileiras #escritorasbrasileiras #literaturafeminista #lendofeministas

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O livro esquecido

Esse questionamento me fez lembrar de uma reportagem sobre um livro que tratava justamente desse tema.

Meus caros leitores vão ter que me perdoar, porque não lembro o título do livro e o nome do autor. Eu tenho esse problema de não gravar as fontes. Foco no conteúdo, mas acabo esquecendo onde vi ou li.

Se alguém por acaso souber, ter lido obra que apresente esse mesmo ponto de vista, por favor, coloque nos comentários.

Achei a tese apresentada do livro muito interessante e acho que faz total sentido. O que foi determinante para escrever sobre o tema até aqui desenvolvido.

Sem tempo para a solidão

Pela argumentação apresentada, o que explica as mulheres inicialmente não ter conseguido produzir na mesma proporção que os homens foi o fato de não ter um espaço só para si, de quase nunca poder ficar sozinha.

Seria esse o motivo da maior produtividade masculina no campo literário. Os homens, até metade do século XX, ou aproximado, ao chegar em casa poderiam se dá o luxo, isso na casa de pessoas alfabetizadas e com instrução suficiente para escrever um livro, de se encerrar em seus escritórios ou bibliotecas dentro de casa. Já as mulheres quase não tinham esse tempo de ociosidade porque fazia parte de suas obrigações os afazeres domésticos, cuidar das crianças, supervisionar a criadagem.

Eram estimuladas a adotar um comportamento frívolo nas horas vagas para atender o padrão de beleza da época, eram obrigadas a aprender algumas atividades para se tornarem “belas, recatadas e do lar” ou impressionar outras famílias demonstrando habilidades no piano e no domínio de outras línguas, sem contar o tempo dedicado aos ensinos religiosos, então, quase nunca ficavam sozinhas.

Ter um tempo só para si e um cantinho para se isolar é uma vantagem considerável e diria até indispensável para a atividade de escrita. Afinal, o livro, um enredo, começa a se formar nos pensamentos, nas reflexões e para poder desenvolvê-los a situação ideal é um ambiente que colabore na imersão em si mesmo.

Ambiente somente possível estando só.

A emancipação feminina propiciou o “boom” literário

Com o avançar das décadas e tabus sendo quebrados, com as mulheres conquistando mais independência, frequentando o mercado de trabalho, conseguindo o direito de se divorciar, com a cultura da divisão de trabalhos domésticos ganhando mais aderência na sociedade e a frequência e resistência quanto a mulheres vivendo sozinhas, onde e quando quiserem, aumentando e diminuindo na mesma proporção, chegou-se a esse boom que estamos testemunhando hoje e que só tende a crescer.

Pois se uma das fases indispensáveis da escrita é a solidão temporária, a leitura é tão indispensável quanto. E está lembrado ou lembrada de quem ler mais no Brasil mesmo?

Não sou o Gaguinho, mas por hoje é só pessoal.

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Amigas e amigos, Aqui vai um quase textão… (por um bom e “nobre” motivo!). Dia desses, depois que arrumei a prateleira de livros lá de casa, percebi que a maioria era escrita por homens. Quis, então, colocar um desafio pra mim: ler, até o final do ano, um livro por semana escrito por mulheres. Serão 24 obras em 6 meses. Pra compartilhar a experiência, abri um perfil onde vou falar um pouco sobre os books e as autoras. Segue lá, me indique alguns livros, critique, comente nos posts ou manda direct porque tem muita literatura pra gente conversar: @desafio24autoras. . . #leiamulheres #mulheresnaliteratura #autorasmulheres #autorasbrasileiras #autorasnegras #literatura #literaturafeminina #literaturabrasileira #bookinstagram #booklovers #bookstagram #currentlyreading #instabook #leiaumlivro #menos1naestante #bookdodia #amreading #readwoman #24por6

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Espero que o conteúdo tenha feito sentido e acrescentado algo.

E aproveito para pedir mais indicações de escritoras nos comentários, principalmente contemporâneas. Estou ouvindo falar muito de Aline Bei. E quais escritoras têm chamado atenção de vocês?

Até a próxima.

 

 

 

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