RESENHA: Drácula de Bram Stoker

Caros leitores, o que saiu ao vasculhar a Cartola Cultural foi um clássico da literatura mundial, publicado em 1897 e que contribuiu sobremaneira para o enriquecimento da mitologia de um dos personagens mais icônicos da cultura pop. Influenciou gente pra chuchu e rendeu uma belíssima e aterrorizante adaptação cinematográfica: Drácula de Bram Stoker.

Drácula de Bram Stoker: o livro

A história conta os apuros em que se meteu o assistente de advogado Jonathan Harker. Ele é incumbido de visitar um importante cliente na Transilvânia, o conde Drácula, onde descobre que terá que passar alguns dias em seu castelo para passar todas as instruções necessárias para viabilizar a transferência do conde para Londres.

Mas o desafortunado Harker percebe gradualmente que caiu em uma tremenda cilada.

RESENHA Drácula de Bram Stoker
Capa da edição da Via Leitura. Ano 2017

Alguns hábitos do conde, como nunca aparecer de dia, nunca jantar junto com o hóspede, não ter criados no castelo, rastejar sobre as paredes… acabam demonstrando que lida com força acima de sua compreensão e que na verdade já não é mais um hóspede, mas um prisioneiro.

O que achei positivo em Drácula de Bram Stoker

O primeiro ponto que gostaria de destacar, principalmente para você que pensa que, pelo fato de ter sido publicado no século XIX, o texto é muito arrastado, tem uma construção muito lenta, é que a leitura flui muito bem.

É ágil, mas na medida certa.

O que me surpreendeu, porque estava esperando mesmo um texto mais denso por causa da época de publicação. Estava preparado para isso, porque não acho ruim esse tipo de texto, gosto muito dos livros desse período, inclusive, mas você precisa está preparado, está “com a pegada” de ler textos mais antigos.

E qual foi a minha surpresa ao me deparar que o estilo de Bram Stoker poderia muito bem ter saído da gráfica hoje sem qualquer prejuízo quanto a alcance de público.

A fluidez se deve principalmente a estrutura da estória

Não é uma trama linear que concentra foco apenas no protagonista, o livro é um conjunto de relatos dos personagens que de alguma forma se envolvem com o drama de Jonathan e a gula sanguinária de Drácula. São recortes de anotações de diários e de notícias de jornais que se mesclam formando um mosaico que proporciona um panorama bem completo sobre o icônico personagem e as repercussões de seus atos monstruosos na Europa de XIX.

Até para poder emular o tom costumeiramente empregado nesses formatos de escrita e inserir mais exitosamente o leitor na atmosfera pretendida, Stoker precisou se valer de uma escrita mais direta, objetiva, com descrições pontuais e rasas, afinal, poucas pessoas ficam floreando muito em diário, se atém a descrever as ações passadas e os pensamentos, sentimentos sentidos em razão dessas ações. O mesmo quanto as notícias de jornais que, por questão de espaço, precisam se restringir ao crucial.

Mas toda narrativa dinâmica em seu relato tem o risco de ficar rasa demais, com personagens mal construídos ou descrições confusas de ambientes e ações, insatisfatórias para situar o leitor onde os personagens se encontram e o que estão fazendo. E não é o caso de Drácula de Bram Stoker, o que acho um grande mérito do escritor irlandês.

Ele conseguiu promover um equilíbrio entre dinamismo e densidade, dentro de uma lógica plausível, em momentos certeiros que torna a leitura leve, ainda que repleta de momentos tensos, mas com detalhes suficientes para entendermos as motivações, angústias e ações dos personagens.

É um livro que acrescenta algo em termos de leitura, tem momentos enriquecedores devido a trama exigir muita sagacidade de raciocínio de seus protagonistas para planejar os próximos passos e entender a natureza do problema que enfrentam. E concede tais acréscimos mesmo não sendo um livro preocupado em deixar uma mensagem, reflexões filosóficas sobre a vida. É uma obra compromissada apenas pela estória que conta.

Coesão interna

A coesão do enredo é um mérito por si só, porque é sempre complicado construir estórias que não têm uma linha temporal fixa, que vai e volta para o prosseguimento da trama.

E todas as pontas são bem amarradas em termos de troca de informações entre personagens, deslocamentos, encontros e desencontros. Como não sou da época de telegrama e longas viagens apenas de trem e barco (não sou tão velho assim e se fosse, andaria somente de capa e a noite), pode ser que tenha alguma “forçação de barra” quanto ao tempo de viagem de um lugar para o outro, mas mesmo que tenha não compromete a coesão da trama.

Não é tão previsível

É claro que quem conhece minimamente a mitologia do Drácula, de vampiro, perde um pouco da experiência que o livro se propõe, no entanto, ainda assim, a narrativa consegue passar momentos de tensão principalmente quanto ao destino dos personagens e o sucesso ou fracasso das tentativas de captura do conde.

E no caso de já se saber de maneira satisfatória sobre a mitologia vampiresca, há aqueles momentos de tensão por conseguir antecipar algumas ações, mas que acabam não se concretizando por não serem tão óbvias. O que gera expectativa de quando irão de fato ocorrer.

É uma boa experiência, entendo.

Gosto de estória que não se apeguem tanto a um só personagem, que não domine sempre o centro das atenções.

Em Drácula de Bram Stoker o vampiro obviamente tem papel importante, mas a narração não foca exclusivamente nele. Afinal é uma estória formada a partir do relato de terceiros e não do conde. Isso ocasiona do vampiro ficar nas sombras durante algumas páginas e gerar sempre um momento de expectativa quanto ao seu retorno em cena.

O mesmo em relação ao destino de alguns personagens que fica em suspenso por alguns capítulos quando a narrativa resolve tocar outras peças para prosseguir com a trama. Em alguns momentos fiquei pensando: “O que será que aconteceu? Ele/ela voltará? Acabou a sua participação? Ele/ela vai voltar ‘normal? ’”.

Personagens

Todos têm o seu momento no livro e a estória não recorre a burrice de alguns deles para poder prosseguir com a trama.

A maioria se mostra sensata, com pensamento e conclusões cabíveis para o contexto peculiar que lidam.

O trabalho de Stoker merece elogios por conseguir imprimir senso de realidade e especular acertadamente, a meu ver, as prováveis reações de tipos lúcidos diante de situação tão extraordinária: o de se verem na mira de um predador, com habilidades incríveis, em forma de pessoa.

Nesse sentido, o doutor Van Helsing é um show a parte. Sem dúvida é o personagem mais astucioso, que consegue prever bem as reações de seus companheiros de luta e preparar o terreno para o apresentar de uma realidade até então impossível.

Sua linha de raciocínio é certeira e sua oratória é clara e poderosa em alguns momentos. E apesar de todas essas qualidades, o enredo não o torna exageradamente intrépido ou incontrariável. É falível, ainda que muito de seus erros sejam em razão de forças, ocorrências, que não tem como controlar.

O núcleo feminino, e lembrando que estamos falando de um texto de 1897, não se reduz a vestidos, espelhos e meu amor. Tem participação importante – e coerente – para o andamento da trama. Demonstra qualidades admiráveis em qualquer pessoa e que não se restringem a uma idealização torta e rasa do ser mulher.

Alguns dos atos das mulheres de destaque em Drácula de Bram Stoker reproduzem um pensamento machista, mas um pensamento tido como normal naquela época. Creio que seja possível afirmar que Stoker apenas retratou o comportamento, o modo de pensar, de seu tempo. Não fez juízo de valor aprovando ou reprovando as convenções sociais de então a respeito desse tema.

A edição

Eu li a edição brasileira, de 2017, publicada pela Via Leitura.

Gostei da arte da capa, acho que passou perfeitamente os principais elementos da trama. A diagramação é muito boa, a fonte escolhida é prazerosa para se ler, as notas informativas são bem oportunas, o espaçamento é agradável e as páginas amareladas contribuem para uma visualização mais atrativa, a meu ver.

O livro tem quase 400 páginas e vem com orelhas.

Achei justo o valor de R$ 40.

E esse valor tende sempre a melhorar quando a leitura agrada.

O que achei negativo em Drácula de Bram Stoker

O conde Drácula funciona dentro do enredo montado. Ele representa uma ameaça constante, é a chave para momentos de tensão, causa intriga, curiosidade e entendemos sua motivação.

Mas achei, em especial comparando com a versão cinematográfica de Francis Ford Coppola, que faltou um pouco de profundidade, camadas, uma ênfase maior sobre o seu passado.

No filme, notamos um personagem angustiado, amargurado que sofreu uma grande perda que o fez se revoltar contra todos, inclusive contra Deus. Via-se um Drácula formado pelos infortúnios da vida, não tinha grande prazer em fazer o que fazia, fazia por uma questão de sobrevivência.

O Drácula de Bram Stoker é o Drácula e pronto. Não tem um grande trauma passado, uma angústia permanente que não seja de se manter nutrido e mudar para a capital inglesa. Pra ele está tudo certo e acha o seu job maneiro apesar de algumas dificuldades.

O mal pelo mal.

Faltaram maiores detalhes sobre alguns aspectos, habilidades e limitações do vampiro. O principal é de conhecimento da maioria e nem precisa de maiores explicações, porém porque ele não pode atravessar água em pleno fluxo? Porque seus poderes são limitados durante o dia e forte durante a noite? Veja, ele não morre instantaneamente se ver a luz do sol, como ocorre em algumas versões, ele pode andar livremente puraí durante o dia, embora prefira a noite. Esperava um pouco mais de didatismo a respeito dessas questões. As informações são jogadas, você sabe o que ele pode ou não pode, mas fica por isso mesmo.

A próxima crítica tenho que ser vago para não dá informação que possa estragar a experiência de leitura. Dá com a língua nos dentes. Mas achei que uma das soluções para evitar um fim trágico de determinado personagem simplória demais.

O enredo coloca os entraves para que fulano consiga escapar por uma rota. A narrativa, então, deixa o personagem de canto, centra-se em outros e de repente ele ressurge já livre da ameaça ainda que debilitado.

Como o personagem x conseguiu escapar não é mostrado. Simplesmente temos que anotar a informação de que se livrou do perigo e pronto.

Achei uma artimanha de roteiro para o escritor se liberar de um beco sem saída que o próprio se colocou.

Conclusão

Eu nunca fui muito chegado em história de vampiro e não estava com muitas expectativas, mas fui bem surpreendido, as virtudes de Drácula de Bram Stoker são muito maiores que suas falhas, que são poucas. Gostei muito da leitura e fiquei com vontade de ler mais livros do autor.

Recomendo.

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É isso, pessoal.

Até a próxima.

 

 

 

 

 

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