RESENHA: Chega de Saudade – A história e as histórias da Bossa Nova

Olá, caros leitores. Espero que o Natal tenha sido bom. Pela última vez neste ano maluco de 2019 vasculhei a Cartola Cultural que me presenteou uma obra de Ruy Castro: Chega de saudade – A história e as histórias da Bossa Nova.

Fiquei animado porque já tinha ouvido falar muito dos trabalhos de não ficção do Ruy Castro, escritor com carreira no jornalismo e há vários anos escrevendo colunas diárias em jornais, revistas e sites noticiosos, principalmente a biografia que lançara do Mané Garrincha e do Nelson Rodrigues, mas nunca, até então, tive a oportunidade de ler um trabalho de sua autoria.

Alia-se a isso, o fato de eu saber muito pouco da Bossa Nova e também ter escutado pouco, muito por causa dos meus pais que sempre detestaram o estilo e me fizeram associar o gênero como algo “chato”, “sonolento”.

CHega de Saudade 2
Capa da edição de 1997 da CIA Das Letras. Fabulosa edição.

Mas com o passar do tempo, entendendo mais os meus gostos, percebi que não seria impossível redescobrir a Bossa Nova de maneira positiva, pois gosto de MPB, adoro Elis Regina, curto músicas do Caetano, artistas que no mínimo se aproximam do estilo musical abordado em Chega de Saudade. Bastasse que tivesse o estímulo certo, conhecesse um pouco mais da história, anotasse músicas de referência e provavelmente descobriria coisa boa.

Logo vi esse livro como a oportunidade que estava aguardando para conhecer mais a fundo esse movimento musical que promoveu e promove o país por todo o globo. Acresce também a expectativa por essa leitura algumas curiosidades alimentadas por saber por cima de algumas informações da Bossa Nova.

Exemplos

  • Sabia que os maiores expoentes do movimento foram Tom Jobim, Vinicius de Moraes e João Gilberto, mas quem é o “pai” da criança?
  • Sei que Jobim gravou um disco de sucesso com Frank Sinatra, tamanho prestígio que a bossa alcançou internacionalmente, como isso ocorreu? Como Sinatra conheceu a Bossa Nova?
  • Como o mundo descobriu a Bossa Nova?
  • Quem é a “Garota de Ipanema”?
  • Qual foi a revolução do gênero? Porque ouvindo hoje é difícil sacar qual foi a inovação.
  • O que aconteceu com esse movimento que fez tanto barulho e hoje serve apenas de som ambiente de hotéis e restaurantes luxuosos?
  • Por que não é reconhecido em seu próprio país de origem da mesma forma que é reconhecido no exterior?

Enfim, todos esses fatores, escritor, curiosidade musical e curiosidade histórica fizeram ficar ansioso com a leitura de Chega de Saudade – A história e as histórias da Bossa Nova.

Será que valeu a pena?

Veja a seguir.

Sobre Chega de Saudade – A história e as histórias da Bossa Nova

Bom, antes da minha opinião, vale detalhar um pouco mais sobre o foco do livro, o período que retrata, as personagens que aborda.

Chega de Saudade – A História e as histórias da Bossa Nova, de Ruy Castro, tem como proposta relatar, a partir de pesquisa de documentação histórica, a origem do movimento musical que surgiu no Brasil e ficou mundialmente conhecido como “Bossa Nova”, os responsáveis por esse estilo revolucionário, o período de vacas magras do movimento, seu apogeu e queda.

Para tal fim, remonta aos anos 1950 e 1960 da vida boêmia e cultural do Rio de Janeiro, local de laboratório e eclosão do gênero.

Chega de Saudade: pontos positivos

Para todos os gostos

Não é necessário você gostar de Bossa Nova para poder curtir o livro.

Claro, se tiver afinidade melhor ainda, mas a narrativa tem o mérito de fazer um retrato de uma época e reunir relatos de vários personagens de maneira tão cativante e fiel que se você gosta do clima dos anos 50 e 60, do universo de boêmia, boates, noitadas, bebida, cigarros, confusões amorosas, das músicas, moda da época, você vai curtir a “vibe” do livro mesmo se detestar “Chega de Saudade”, “Desafinado”, “Bim Bom”, entre outros clássicos do gênero.

Porque o movimento, como todos, aliás, é constituído de pessoas e o enfoque do trabalho de Ruy Castro é narrar o processo histórico de nascimento, ascensão e declínio dessa revolução musical brazuca e não se ater a análise musical, esmiuçar o desenvolvimento criativo das composições, harmonias etc, embora também faça isso em alguns momentos, mas não é o foco.

A estrutura narrativa de Chega de Saudade não é linear o tempo todo e nem se debruça em um protagonista porque a Bossa Nova é uma criação mais coletiva do que resultado do trabalho de um gênio criativo. Claro que há personagens que se destacaram e acabaram se tornando ponto de lança do movimento, mas o fato é que a Bossa Nova foi mais fruto de uma época, um esforço coletivo sem consciência do que exatamente buscava.

Tanto que não houve um manifesto, uma carta de princípios, um evento com clara intenção de apresentar um novo estilo intitulado “Bossa Nova”. Seus autores praticamente foram informados por terceiros que faziam parte de um movimento vanguardista musical. Não se sabe nem quem foi o autor da ideia do nome Bossa Nova.

Portanto, a narrativa precisa se debruçar na reconstituição da época, seu contexto, elencar vários personagens e centrar atenção pontualmente em algumas figuras e períodos para explicar as origens do movimento. Faz isso brindando o leitor com várias informações e causos sobre diversas personalidades, conhecidas ou não, que tiveram a sua contribuição para o que viria a ser a Bossa Nova.

Particularidade que se mostra um desafio e tanto, no meu entender, para escrever sobre o tema de forma clara e proporcionar entretenimento.

Minha experiência foi positiva nesse sentido.

Entendo que Castro soube organizar bem o grande volume de informações necessárias para tratar do assunto de forma satisfatória, buscar referências certeiras para ambientar o leitor ao Rio de Janeiro da primeira metade do Século XX e construir uma narrativa compreensível recheada com informações e curiosidades regadas de bom humor.

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Vinicius de Moraes era mesmo um homem surpreendente, que encontrou na bossa nova, na garota de Ipanema e na praia de Itapoã as paisagens perfeitas para sua poesia. . Sua poesia sempre inspirada e apaixonada é a maior e mais duradoura prova de todas. Rodeado por muitos amigos e muitos amores, Vinicius mantinha aquela expressão de menino procurando algo, sempre atrás de alguma coisa. Talvez tenha achado, talvez a tenha perdido, mas ele estava sempre procurando. O amor que residia na felicidade, ou a felicidade que residia no amor. Ninguém jamais professou o amor com tamanha delicadeza e ternura como Vinicius de Moraes. . Fonte: http://www.esquinamusical.com.br/vinicius-de-moraes-bossa-nova/ . . Aqui no Desafinado temos as poesias de Vinicius embalando nossa decoração e as suas músicas em nosso dia a dia. . . . #samba #mpb #desafinadocafe #coffee #coffeelovers #oquefazeremcuritiba #bossanova #mpb #joaogilberto #tomjobim #jazz #viniciusdemoraes #curitibacool #curitibando #cwb #cwblovers #oquefazercuritiba #vegan #vegetarianos #veganoscuritiba #vegano #vegans #doces #desafine-se

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Um caldo complexo e agradável para todos os paladares. Creio.

Acho uma façanha para poucos.

Linguagem fluída

Sem dúvida a montagem dessa estrutura narrativa ficaria comprometida se não contasse com uma linguagem fluída, dinâmica, que envolvesse o leitor o estimulando a consumir mais e mais das 462 páginas do livro. Certamente a experiência escrevendo em jornais e revistas ajudou o autor nessa tarefa.

Não me sentir lendo um livro de história didático, típico de escola, ou um segmentado para público muito específico, como pós-graduando de filosofia. Lembra mesmo a leitura de um periódico que acostumamos a ver nas bancas (se não abe o que é, dê um Google, por favor).

Não tenho problema com linguagem mais rebuscada, desde que não seja parnasiana, mas mesmo a parnasiana eu vejo virtudes, no entanto, em alguns casos, como esse que necessita trabalhar com uma miríade impressionante de informações e pessoas, quanto mais simples melhor e nem faria sentido um livro que trata de um assunto tão pouco difundido no Brasil, e tão importante para a nossa história, para a nossa cultura, segmentar demais o público devido a sua linguagem.

Esse é mais um ponto positivo, julgo.

Retrato da época

Já toquei nesse ponto, mas vale ressaltar e abordar outros aspectos sobre esse tópico.

Chega de Saudade tem o mérito de não só conseguir recriar em palavras a atmosfera do Rio de Janeiro boêmio de 1950 e 1960, como consegue retratar o espírito da época, algumas características do período envolvendo o cenário musical.

Acho que o maior exemplo é o capítulo que trata do Sinatra – Farney Club. Sim, um clube de fãs de Frank Sinatra e Dick Farney, este último, um brasileiro,  cantor influente nesse período, mas que assim como tantos outros, hoje está em total esquecimento.

A narrativa consegue demonstrar como a música era tratada nessa época, como era popular, motivo de debate nas escolas, faculdades e em lojas de discos. Pessoas discutiam e podiam sair no braço ao afirmar que tal cantor ou cantora era melhor do que outro ou que um saxofonista era melhor do que outro.

Pessoas gostavam de ouvir determinado vinil não para escutar a voz da cantora ou cantor, mas por gostar da batida do violão ou toque do piano. Os instrumentistas eram conhecidos por nome e sobrenome, reverenciados e buscados nas lojas do ramo.

Lembra-me muito as discussões que temos hoje sobre cultura pop, Marvel e DC. Chega de Saudade consegue passar a paixão que a música despertava a época, como mobilizava as pessoas, como tinha uma indústria, boa parte amadora, mas forte, que estimulava sonhos de milhares de pessoas Brasil afora para se tornar a próxima estrela da Rádio Nacional, a próxima estrela das noites cariocas ou paulistas.

Eu me sentir completamente imerso nessa atmosfera e conseguir entende todo o contexto que propiciou esse engajamento.

O mesmo quanto à dinâmica das boates, funcionamento do circuito comercial, influência da imprensa entre outras questões. Se não é um livro que vai lhe dá total compressão sobre o período, pois o seu foco é o aspecto musical, certamente contribuirá para entendimento de parte significativa. Portanto, se busca mais informações da época, acho Chega de Saudade uma excelente indicação.

Edição

A edição que tenho em mãos de Chega de Saudade não deve ser a mais atual, é de 1997, CIA Das Letras, mas não deve ficar devendo muita coisa, se é que deve, de uma mais atual. Achei-a fantástica.

Tem farto material fotográfico, muitas, muitas fotos mesmo de pessoas, Lps, pôsteres, manchetes de jornais e locais da época espalhadas ao longo do livro, a maioria com legenda, e tem até um mapa! Um mapa ilustrado do Rio de Janeiro e São Paulo de 1950 e 1960 indicando a localização das principais casas de espetáculo, bares, boates, emissoras de rádio etc.

Isso ajudou a muito a entrar nesse universo hoje distante. Acho que é a edição com melhor material de apoio que já tive em mãos. Foi essa qualidade e quantidade que faltou, por exemplo, na biografia do Benjamim Franklin que li há não muito, por exemplo.

Outra coisa que estava torcendo para o livro ter, e que não me decepcionou, foi uma discografia. Uma página listando os LPs, aristas, músicas citadas durante a narrativa – uma penca! – para que se pudesse consultar depois.

O ano de lançamento do livro é 1990, então, para ouvir as músicas era necessário buscar os LPs apontados em sebos ou lojas especializadas, por isso o autor avisa que há material que não foi lançado no Brasil ou se perdeu em algum momento de nossa história. Mas hoje, graças à internet, esse problema é resolvido em dois cliques praticamente.

Eu mesmo estou fazendo isso. Terminei o livro faz um pouco mais de um mês e todo dia pego ao menos um artista citado para ouvir no Youtube e conhecer mais sobre o gênero, as suas influências.  Como previa, venho descobrindo muita música interessante.

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Esta é uma coletânea da série História da Música Popular Brasileira, dou destaque para o disco em razão dos três ícones indicados, e é sobre eles que quero escrever hoje! Carlos Lyra é uma das mentes idealizadoras do que conhecemos por bossa nova, representa a linha mais 'raiz', bem conectada com o samba. Oriundo de Botafogo, começou sua incursão na arte a partir do piano e depois foi para a gaita; se especializou ainda mais após um acidente num salto à distância que resultou em uma lesão séria na perna. Por conta disso, encontrou tempo para tocar violão e outros instrumentos. Já adulto, em Copacabana, conheceu Roberto Menescal, outro gênio da bossa nova, o que lhe fez desistir da Arquitetura e se dedicar integralmente para a música. Sobre o Menescal, meu maior apreço nem é originário de sua contribuição apenas na bossa nova, mas sobretudo sou grato pela sua produção do que é para mim um dos maiores álbuns da história do Brasil, o Loki? do Arnaldo Baptista. E por último, contudo não menos destacado, faço minha reverência ao Ronaldo Bôscoli! Embora tenha sido um homem no mínimo controverso, em especial nos seus relacionamentos, foi uma figura fundamental na nossa produção musical nacional. Veio de uma família com lastro artístico, já que era casado com Elis Regina, bisneto de Chiquinha Gonzaga, primo de Jardel Filho e pai do produtor João Bôscoli. Foi um exímio compositor e produtor, colaborando com trabalhos de grandes artistas como Nara Leão, Jair Rodrigues, os supracitados acima, e no âmbito do mainstream com vários programas de tv, como aquele anual do Roberto Carlos. Talvez o Brasil seja o terceiro maior exportador de música para o mundo, ficando atrás dos E.U.A e Reino Unido; penso que muito disso se deve aos três… #vinil #lptododia #bossanova #vitrola #robertomenescal #ronaldobôscoli #carloslyra #música #mpb

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Não me tornei um “fãnzaço” de Bossa Nova, tem músicas que realmente não faz o meu gosto, mas, como disse, descobrir outras interessantes que fez aumentar o meu repertório sobre Bossa Nova e adquirir mais respeito ao estilo.  E isso se deve a esse trabalho fantástico do Ruy Castro e dessa edição espetacular.

Um livro. Várias “biografias”

Por precisar descrever os méritos e um pouco da vida dos vários personagens que participaram da fundação e da consolidação do movimento musical conhecido como Bossa Nova, Chega de Saudade acaba servindo de introdução a biografia de diversas personalidades importantes como a talentosa Sylvinha Telles, o terremoto Maysa, o obscuro Newton Mendonça, a discreta, mas corajosa, Nara Leão, o genial e pau de toda obra Tom Jobim, o poético e pé de cana Vinícius de Moraes, entre tantos outros. Nos apresenta histórias que cumprem com a função de nos inteirar sobre o assunto tema do livro, mas também servem de convite para maior aprofundamento desses personagens.

Foi o que ocorreu comigo. Espero em breve ler mais sobre Tom Jobim e Frank Sinatra, por exemplo, não Wikipédia ou artigos, livro mesmo.

Despertar essa curiosidade, vontade de mais leitura, sem dúvida é um mérito.

Talvez o único personagem do período cuja leitura de Chega de Saudade dispense a consulta de uma biografia inteiramente dedicada a ele seja o João Gilberto, pois acompanhamos a trajetória dele na narrativa desde menino até a sua maturidade, acompanhamos boa parte de sua carreira. Por isso, se precisar apontar um “protagonista” do livro seria o exótico cantor, pois de fato teve papel de destaque como porta voz de uma revolução com a música que dá título a obra: “Chega de Saudade”.

Neste livro o leitor vai conhecer muita da personalidade difícil, as manias, a dedicação, o talento e um detalhe curioso de João Gilberto: na sua juventude ele foi uma espécie de “Kramer de violão”.

Chega de Saudade: ponto negativo

Minha única ressalva a Chega de Saudade é que por vezes fica muito confuso entender a linha cronológica, a sucessão de eventos. São tantos personagens, tantas músicas e locais que é difícil não se perder em algum momento. Felizmente isso ocorreu depois da metade do livro e não chega a comprometer muito a compreensão sobre as questões principais porque logo se percebe a complexidade da tarefa de fazer uma reconstituição histórica dos fatos que propiciaram a Bossa Nova.

Fica apenas difícil de precisar datas, pessoas, locais, mas terminei o livro compreendendo o mais relevante.

Acho que tem que se dá um desconto a essa confusão. Entendo até que é inevitável que isso ocorresse e que foi feito mesmo assim um trabalho notável, mas tenho que pontuar esse problema. Contudo, não ofusca sobremaneira o brilho da obra.

Conclusão sobre Chega de Saudade – A história e as histórias da Bossa Nova

Minha primeira experiência com um livro de Ruy Castro atendeu a expectativa. Esse foi um trabalho formidável, uma leitura agradável, fluída, informativa, bem contextualizada e com uma edição soberba. Um grande serviço para o legado da Bossa Nova.

Contar essa história ou histórias é de partida um grande desafio e acho que nós brasileiros tivemos a sorte de contar com um grande trabalho, um grande jornalista, um grande escritor para dá conta do recado.

Recomendo sem medo.

É isso galera.

Espero que tenham gostado da dica de leitura, Chega de Saudade – A história e as histórias da Bossa Nova. Agradeço aos que me acompanharam neste ano de 2019, um ano sem dúvida de crescimento do Cartola Cultural, e aos que me visitam pela primeira vez fica o convite de me acompanhar neste novo ano que se inicia. Dois mil e vinte promete boas novidades e mais conteúdo.

Retorno com as atividades do blog depois do carnaval.

Boas festas, boas leituras, bons filmes.

Até a próxima!

 

 

 

 

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