RESENHA: Nihil – Carolina Mancini

Sinceramente não sei se é o melhor momento para escrever sobre Nihil, livro da autora Carolina Mancini.

Você sabe que livros são ótimos aliados para lidar com esses tempos de clausura. Mas essa verdade talvez esteja tão desgastada que só de ler de novo esse papo esteja com vontade de abandonar esse texto.

Todo mundo está saturado. São tempos difíceis, a rotina cada vez mais insuportável e nesse clima a inclinação natural é recorrer a temas mais amenos, divertidos, alegres, escapistas. Tentar fugir, mesmo que por um breve momento, desse pesadelo chamado Brasil 2020.

“Nihil”, vencedor do Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica – Narrativa Longa de Horror

“Nihil” é muita coisa e não fui só eu que percebi. Foi laureado em 2019 com o Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica – Narrativa Longa de Horror e classificado entre os 60 melhores livros de terror da década, segundo o site Biblioteca do Terror. Mas adjetivá-lo como “divertido” ou “alegre” é um disparate.

Ok, é uma narrativa de horror e quem curte o gênero curte em qualquer época, provável que cause o mesmo efeito agradável, em termos de entretenimento, aos que adoram uma boa comédia.

Verdade, mas creio que isso é garantido quando a história consegue nos tirar do nosso mundinho. O enredo de Nihil, entretanto, traz paralelo sinistro com a realidade que vivemos hoje. Então, se a ideia é subir na superfície para respirar um pouco, talvez seja apenas mais tragado as profundezas.

Sobre o livro

Um mundo onde as pessoas precisam viver encerradas dentro de casa ou em qualquer outro lugar na qual consigam evitar a entrada de um agente externo praticamente onipresente e mortífero.  

O único som que os sobreviventes conseguem escutar do lado de fora é o estardalhaço dos bombardeios patrocinados, provavelmente, pelas autoridades públicas para tentar exterminar uma ameaça que talvez exista apenas na cabeça e no coração de cada um.

Poderia ser a sinopse brazuca de 2020, mas, não, é o enredo formulado pela autora Carolina Mancini, que também ilustra a arte do livro.   

“Os dias e as noites estão indefiníveis, e eu os conto pelas voltas do relógio. A Ana não tem mais mamado do meu leite, e Paulo não brinca e nem ri. Miguel não consegue desviar sua atenção da nossa palidez”

O “agente externo” no caso é uma neblina devastadora e implacável que explode literalmente cabeças, além de arrancar membros. Não se sabe ao certo como essa neblina surgiu e porque provoca essas reações tão horripilantes.

O Nevoeiro?

Lembra muito o enredo de “O Nevoeiro” do Stephen King, não é? Foi exatamente o que me veio na cabeça e deve ter vindo na de tantos outros que leram a sinopse de Nihil (é provável que a autora tenha escutado isso umas zilhões de vezes e já esteja de saco cheio disso. Me desculpe se for o caso). Mas claro que há diferenças e as propostas são diferentes.

Se em “O Nevoeiro” vemos que, além da ameaça dos horrores que a neblina encobre do lado externo, o protagonista precisa lidar com os horrores do coletivo de refugiados que o cerca (“o inferno são os outros”), em Nihil temos o nevoeiro e a desolação da solidão.

O que nos resta quando estamos sós e precisamos lidar com nossas incertezas? Enfrentar nossos medos. E talvez esse seja o pior monstro de todos.

“Ardeu o sol dos olhos de Deus
até que queimou-me a pele
descamada, sem tato,
Foi percebido o brilho sem queimar
e explodiu ouvidos.
Eram titãs que estavam chorando”

Nihil trata de angústia, de impotência, de desesperança, de remorso, de calamidade. É intenso, cruel e belo (falo mais disso adiante).

Outro ponto a se destacar, a distinguir do clássico de King, é a linearidade, ou a falta de. A narrativa não se centra em um protagonista, é fragmentada, forma um mosaico de uma situação catastrófica e deplorável.   Capta um sentimento ruinoso de uma era apocalíptica e crepuscular.

Entendeu minhas dúvidas sobre o momento de trazer à tona Nihil?

Bom, mas se escrevo sobre nesse momento é que decidir que, sim, vou falar sobre Nihil.

E por quê?

Porque é, pelo menos pra mim foi, uma experiência rara. Apesar da temática pesada, dos paralelos lamentáveis para nós, para todos, que vivemos essa situação bolsoraniana, traz algo diferente, muito particular que, a seu modo, consegue até suavizar o horror ficcional e de nossos dias.

Com tantas tardes e noites parecendo as mesmas, com tantas notícias se repetindo, creio que qualquer coisa diferente, nova, seja um bálsamo para as nossas almas. E creio que Nihil consegue proporcionar uma experiência memorável nesses dias tão esquecíveis.

O que gostei em Nihil

Horror poético

Confesso que não sei se isso já foi feito antes. É a primeira vez que vejo materializado em livro a junção de horror + poesia e nem desconfiava que tal soma era possível. Nihil me mostrou que sim. A narrativa não ocorre em forma de poema, que fique claro, apesar de ter alguns trechos que são de fato poesia pura.

Nihil tem uma poética que se impulsiona com o horror. Nunca coisas tão horríveis foram escritas com palavras tão belas. Imagine uma poetisa usando a sua arte para descrever a decrepitude, o abandono, a morte lenta e próxima, o suicídio.

Os trechos intitulados “Fúlgidos” são bem ilustrativos do estilo:

Fúlgidos

“Feito estrela, precisava expandir-se. Andou cegamente pela neblina aceitando que essa era sua nova condição. Perdeu a conta do quanto seguiu. Só teve medo quando ventou e percebeu andar em círculos. Achou que jamais sairia do lugar e, de medo, cravou os pés desesperados. Se tivesse seguido andando, talvez encontrasse algo, mas dominada pela dúvida, enraizou seu final”

“As palavras cuidadosamente escolhidas se encarregam de evocar lirismo tocante na tragédia que se narra. Estilo que permite abordar e descrever cenas horríveis sem chocar em demasia e tornar possível o prosseguimento da leitura. A mensagem é transmitida, mas de forma palatável, ainda que não deixe de causar incômodo”

Sensacional.

Marcante e inspirador

Durante a leitura eu me sentir inebriado pela inspiração contida nessa narração repleta de dor e graça, como se ela emanasse do livro em forma de neblina e tomasse pouco a pouco o ambiente em que estava fazendo a leitura.

Por vezes me via pensando, com a cabeça de escritor: “Que momento mágico ela devia estar passando durante a escrita. Cada linha transborda sentimento. Espero um dia passar por uma erupção dessas”.

Se você nunca se deparou com algo assim, e se você é fã do gênero, curte esse tipo de história, é uma experiência que está faltando na sua vida de leitor. Não digo que com certeza vá gostar, mas certamente vale conferir e tirar suas conclusões.

Mamãe, claro, refutava. Ela viu minha tia enfrentar a neblina para, no instante seguinte, ter seus miolos, um olho e a correntinha de cruz grudadas no vidro da porta.

Ritmo

O estilo empregado, a linguagem utilizada também favorece a dinâmica do livro, no meu entender. Dependendo de seu perfil de leitura, é provável que termine Nihil logo na primeira leitura.

Porque além de ser curto, 137 páginas, a narrativa flui de uma maneira tão natural, tão bem intercalada, é carregada de uma poética tão agradável de ler e de ouvir, que cada parágrafo é um convite irresistível para o próximo.

Isso pode prejudicar até o entendimento da história, porque Mancini não segue o caminho mais fácil na estruturação de sua obra, não é óbvia. Se você se deixar levar pelo ritmo irresistível ou se concentrar apenas na beleza de seus termos, provável que deixe escapar um detalhe importante.

“Já estava acostumada com a ideia de ser a única sobrevivente, ao menos na cidade, quando vi outra pessoa. Não posso dizer seu sexo, suas vestimentas que talvez um dia tivessem sido brancas, arrastavam-se. Seu olhar era, talvez, mais perdido que o meu, no entanto, de total deslumbre, contemplação, descoberta. Eu quis gritar e correr até ele ou ela, mas temi algo que não sei dizer. A verdade é que não havia medo, mas sim resignação, eu havia aceitado o fim da humanidade e não queria ter de volta o mundo desonesto, frio, inconsequente e vazio dos homens. Propositalmente ‘me distrai’ com um gato ronronando, gorducho e feliz, a neblina ainda não era densa a ponto de tampar toda a visão. Eu queria crer que a terra estava em melhores mãos”

Aponto também os diálogos como uma das causas desse bom ritmo. São diretos e jamais se prendem em detalhes.

Cronologia

Nihil não segue a linha cronológica clássica. São vários personagens que ganham holofotes. Cada um contribui com suas histórias para montar um mosaico horripilante sobre a calamidade que assolou o mundo em data incerta. Algumas têm continuidade, outras são de voo único (o que achei uma pena em alguns casos, porque fiquei interessado em saber mais sobre a vida de alguns personagens).

De início, você fica confuso sobre o que está ocorrendo, quem são aquelas pessoas, o porquê de alguns trechos e aos poucos uma linha mestra começa a ganhar forma.

Sempre acho agradável nesse tipo de narração quando as peças começam a se encaixar e você passa a ver sentindo no que antes era caos. Foi o caso de Nihil (embora nem todas as respostas sejam dadas).

“As velas estão no fim, em breve, precisaremos queimar nossas roupas”

Embaralhar as peças e depois alinhá-las minimamente para provocar esse efeito sem dúvida não é fácil e dá trabalho (digo por experiência própria, porque fiz algo semelhante no meu primeiro livro), portanto, destaco como mais um ponto alto da obra.

O que não gostei de Nihil

Rápido demais

Não, não é o velho clichê “o único ponto negativo é que acaba rápido demais”.

Eu entendo que o estilo adotado prioriza o ritmo, a transmissão de um sentimento, de sensações. Mas esse ritmo abre mão de fornecer muitas vezes detalhes mínimos sobre os personagens, aparência, personalidade, etc. Cabe ao leitor preencher essa lacuna.

Quando isso é necessário com um ou outro tipo, ok, mas com vários, pelo menos a mim, prejudica um pouco na imersão.

“Hoje sou só essa carcaça poluída pela neblina”

É uma escolha, uma preferência, penso, por isso não posso nem apontar como uma falha.

Há quem vai ler o livro e lidar super bem com isso, como as ótimas avaliações que já recebeu comprovam.

Mas há quem possa se incomodar com esse detalhe, como é o meu caso.

A autora, Carolina Mancini

Conclusão sobre Nihil

Certamente é uma obra que se destaca em vários aspectos. Foi marcante pra mim, me surpreendeu, me tirou da zona de conforto.

É criativa, transborda originalidade e sentimento.

Claro que recomendo.

Nihil está disponível na Amazon e você pode conhecer mais sobre o trabalho da autora aqui.

Sugestão de leitura

Está disponível na Amazon, gratuitamente pelo Kindle Unlimited, meu livro “Catástrofe no Coração da República (das bananas)”. Um suspense político com muita chuva, asfalto, moto e… bomba!

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2 comentários

  1. Estou com esse livro na lista de leituras tem um tempo. Já havia lido a sinopse e assim como você disse “Bam! O nevoeiro de King” hahaha
    Gostei muito de ler suas impressões sobre a obra, gosto quando se trata de um livro com uma narrativa mais poética, acho que livros assim transmitem muitas sensações aos leitores e como você mesmo menciona, é difícil (eu pelo menos nunca li) um livro que mesclasse horror com poesia haha. Talvez alguns contos do Poe se encaixem nessa denominação, mas, romance eu não me lembro de ter visto.

    Gostei imensamente da sua resenha e certamente vou adiantar algumas leituras e ler logo esse livro *-*

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi, Aryana. Nihil foi de fato uma surpresa agradável do início ao fim. A Carolina mandou bem demais. Fico muito feliz de ter conseguido estimular a leitura do livro por meio da resenha. Os autores nacionais e independentes precisam de todo apoio possível (como um que sou, sei bem disso). Agradeço a leitura e as palavras.

      Curtido por 1 pessoa

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