RESENHA: Mauá – Empresário do Império

O que sai hoje da Cartola Cultural é uma biografia do empresário mais importante do século XIX no Brasil (e talvez até do Uruguai), o homem responsável em dá um norte a combalida economia brasileira após o enfim da escravidão, o homem que colocou o imperador em trabalho de enxada: Irineu Evangelista de Sousa, mais conhecido como Barão de Mauá.

O trabalho de pesquisa sobre esse homem notável da história brasileira, escrita pelo jornalista Jorge Caldeira, foi publicado em Mauá – Empresário do Império, pela CIA Das Letras.

Um pouco sobre o livro

Conhecemos a vida de Irineu Evangelista de Sousa, desde a sua dura infância no Rio Grande do Sul, a sua mudança para a capital do império ainda garoto para trabalhar como “faz tudo” em uma empresa de comércio de diversas atividades, a sua ascensão dentro dessa empresa revelando dedicação férrea e habilidades de contabilidade assombrosa, o momento que passa a ser dono dessa instituição e ter que seguir com os seus próprios passos; as suas investidas ousadas no ramo da indústria, um setor ainda muito capenga no Brasil do século XIX que vivia em grande parte as custas da vergonhosa exploração humana, o lançamento do primeiro banco brasileiro realmente voltado a financiar o desenvolvimento empreendedor no país, o seu papel crucial para não levar o país vizinho, Uruguai, ao total colapso econômico devido aos diversos conflitos internos e as inúmeras adversidades que enfrentou por causa de inimigos poderosos, inclusive o imperador (depois desse livro, a imagem que eu tinha de Dom Pedro II recebeu uma rachadura. Não que deixe de ser alvo de admiração, mas poxa, Pedrão, que mancada), que o levaram a passar por momentos de grande angústia.

Capa Mauá Empresário do Império
Capa da edição da CIA Das Letras de Mauá: Empresário do Império.

Apesar de focar na vida do Barão de Mauá, que há quem diga que recebeu esse título de Dom Pedro II pela intenção de se gerar sentido duplo, “que mau há”, pelo fato do imperador desconfiar das intenções de Irineu ao conquistar poder que lhe fez ser o homem mais rico do país, da América do Sul e um dos maiores do mundo, o livro não se dedica exclusivamente a vida do barão, toca bem ligeiramente nos aspectos mais íntimos de sua vida, o que achei um ponto falho, mas comento mais adiante, porque é impossível analisar sua vida sem se debruçar nos acontecimentos políticos de sua época, no contexto político e social de sua época já que, como apontado acima, foi um dos homens responsáveis em reconstruir as finanças do país, após a imposição do fim do tráfico negreiro imposto pela Inglaterra, ao se apontar um novo modelo de negócio inspirado nos ideais ingleses, foi o cidadão que forneceu subsídios ao Uruguai para enfrentar a sanha de um ditador argentino, além do fato de ter sido deputado, ainda que com atuação não tão marcante.

O trabalho de Caldeira acaba sendo um trabalho de reconstituição histórica, um prato cheio para quem se interessa sobre o século XIX brasileiro, com relatos de vários eventos marcantes da época, figuras políticas de destaque – e desprezíveis – e varias curiosidades.

 O que achei de positivo

O começo do livro foi uma escolha muito acertada. Não inicia da forma clássica descrevendo o nascimento, a casa que o biografado nasceu, os pais etc, mas com Mauá já calejado, avô, com a fortuna consolidada, com sua bela casa no terreno em frente a residência imperial no Rio de Janeiro, descrevendo um pouco de sua rotina, seus hábitos e algumas curiosidades.

Frase Mauá
Mauá também tinha habilidades de escrita. Escrevia com frequência em jornais e chegou a fazer uma autobiografia que teve boa repercussão. Crédito: Jornal Express.

Achei acertado porque os eventos históricos são tantos e o campo de atuação de Irineu, a parte econômica, contabilidade, transações financeiras, requer bastante atenção, explicações, que consomem boa parte do livro, o que entendo ser necessário para o leitor se situar na história, aliado ao fato de Mauá não ter sido dono de personalidade “magnetizante”, era tímido no que dizia as atividades sociais, retraído, totalmente focado no seu trabalho, o leitor que se sinta interessado na leitura para apreciar o poder de um homem extremamente rico, aproveitando as benesses de uma vida de luxo, só vai vislumbrar esses momentos depois de muito avançar do livro e em doses bem moderadas, já que Irineu não se encantava com a vida de luxo, se encantava com os resultados de seu trabalho, na realização de seus sonhos desenvolvimentistas. Ter iniciado a obra na sequência cronológica clássica poderia gerar impaciência no leitor a espera do momento de glória alcançada.

Jogo luz novamente a reconstituição histórica, o trabalho de pesquisa, a habilidade de se colocar no tabuleiro todas as personagens relevantes para a história de Irineu e descrevê-las bem. Durante a leitura sentimos a sociedade carioca, brasileira em geral, com vida própria, pulsante, com todos os seus defeitos e virtudes. Conseguir entrar na atmosfera, no clima do período, ao contrário, por exemplo, do que ocorre em Benjamin Franklin – Uma Vida Americana, que resenhei aqui no blog ano passado.

E edição que li da CIA Das Letras é muito bem ilustrada, há fartura de imagens da época, fotografias, pinturas, mapas, capa de jornais, de livros, imagens de moedas do período, panfletos, todos com valor informativo, complementando bem a leitura. Edição espetacular nesse sentido.

A leitura é agradável. Leve. Consumir dezenas de páginas sem esforço em cada oportunidade, o que é um ponto superpositivo considerando os assuntos que o livro aborda, como economia. Exatas definitivamente não é a minha área. Sou longe de ser um entendido do assunto, muito menos de operações financeiras do século XIX e isso não me impediu de ficar “por dentro” do que estava ocorrendo, de entender o básico, o essencial. E isso se deve a muita escrita de Caldeira. Certamente deve ter ajudado a sua experiência como jornalista de jornais e revistas importantes no Brasil para conseguir abordar assuntos delicados em uma linguagem simples e envolvente.

O que achei de negativo

Tubo bem que a vida do Barão Mauá necessita fazer um monte de parênteses, abordar assuntos financeiros, acontecimentos históricos, apresentar figuras que não são tão conhecidas pelo público, mas que tiveram papel relevante no destino de Irineu e que o personagem biografado não tinha uma vida social de arrancar suspiros, mas achei, que mesmo com o recursos de explorar um pouco essa lado no começo do livro, essa parte da vida de Irineu fica por demais apagada ao longo das 557 páginas da edição.

Eu tive dificuldades de me sentir na pele do personagem, de imaginá-lo em ação, porque até a sua aparência é ligeiramente descrita ao longo do relato e o livro abarca todas as fases da vida dele, do garoto de infância difícil, do jovem promissor, do homem recém emancipado, do senhor bem sucedidos no negócios, no velho decepcionado com a gente de seu país, são poucas as vezes que temos noção de como ele está fisicamente, em que estágio da vida se encontra, de como o tempo o maltratou ou não. Esse distanciamento de sua vida pessoal, íntima, não que o meu desejo fosse um livro de fofocas sobre o biografado, gera dificuldade de conexão, de empatia, de maior envolvimento com o personagem, de ver mais do seu lado humano. A sensação que tive é que estou acompanhando o “mito” em movimento, em ação, mas acho que em uma biografia é necessário um pouco mais do que não vem, ou que não veio, a público, dissecar o biografado em todas as frentes. Não que não tenha esses elementos na narrativa, tem, mas são bem pontuais, escassos, e isso me gerou incômodo.

Outro ponto negativo são os últimos capítulos do livro. Apesar de em boa parte Caldeira ter conseguido expor os aspectos econômicos, a engenharia econômica organizada e tocada por Irineu, e também da economia do Brasil imperial, no final do título essa parte econômica ficou ainda mais acentuada, quase que onipresente o que deixou, no meu entender, a leitura maçante, difícil de acompanhar ou de se importar em querer estar junto da narrativa. O meu desejo era acabar simplesmente e saber do destino do Barão.

E puxa… é um livro triste, não a sua execução, estou falando agora sobre a vida do Barão, sobre o período histórico.

Lendo esse livro entendi a origem de muitos de nossos problemas que perduram até hoje, do pensamento mesquinho, medíocre, odioso que mantém esse país eternamente de joelhos. Creio que todo leitor de bom senso vai sentir o peso, a angústia, a decepção que em determinado momento toma conta do Barão de Mauá, sem dúvida um grande patriota, um dos maiores brasileiros de todos os tempos.

Interna livro Mauá
A edição da CIA Das Letras é repleta de imagens históricas.

Conclusão

Colocando na balança, me entretive-me bastante com Mauá – Empresário do Império, por mais de centenas de páginas, foi uma experiência enriquecedora, sair aprendendo mais sobre a nossa história, da história de nossa economia, pelo menos da época imperial, dos grandes feitos desse homem notável. Não tinha consciência de sua grandiosidade, não só pela questão pecuniária, mas de sua visão de mundo, de país, o projeto que queria desenvolver por aqui, o seu progressismo, sua visão moderna, sua força de vontade assombrosa e inspiradora. Então, como não recomendar um livro desses? Tem seus problemas? Tem seus problemas, em minha opinião, mas a nota geral é acima da média.

Gosta de biografia, de história, de história nacional? Vale a pena.

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Até a próxima.

 

 

 

 

 

 

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